sábado, 28 de fevereiro de 2015

ACEITA-ME

Nos bastidores vesti-me de forma atraente e inteligente
com duas peças apelativas e um manto, um espanto
acariciando o meu corpo, apetecível, puro, irresistível
que lhe deu logo a resposta, retirando-o, bruscamente.
O meu amado, ao ver-me assim, ficou tão enciumado
 afirmando, no entanto, que eu parecia uma princesa
uma pintura valiosa, cara, maravilhosa e muito rara
que apetecia observar, afagar, reverenciar e aprofundar.

Em resposta, fitei-o num aparato descarado, propositado
percorri, ousada, as mesas do salão, já entusiasmado 
de serpente mansinha ao pescoço, nada em alvoroço
dançando, andando e agitando as ancas, já treinadas.
Centenas de homens assistindo, apreciando e ansiando
a contorção sensual, libidinosa e fatal do meu ventre
o modo diferente e a cobiça pelos meus seios salientes
por entre labaredas de fogo e luz, ardentes e imponentes.

Caminhei, bela, segura, na lascívia de olhares insaciados
invadindo, deambulando, conseguindo, conquistando 
pondo a escorrer pelas minhas pernas e pés, néctares 
que ofereci, forçando um, com cara de parvo, a lamber.
Continuei aquela movimentação com beleza e destreza  
dominando o espetáculo, de forma poderosa e graciosa 
enchendo a minha garganta de líquidos não alcoólicos
que zás, despejei nas goelas de um pobre diabo, coitado!

Todos no seu apogeu, admirando, suspirando e delirando
fumando e bebendo, compulsivamente, e já sem noção
aplaudindo, entusiasticamente, a minha forte atuação
que, crescentemente, os encantava, seduzia e excitava.
Aproveitei, então, a hipnotização deles, para me afastar
de modo ténue, perturbador, flexionando o meu cabelo
arrancando dele as plumas vistosas que o embelezaram
enquanto eles, todos, e eu, já de costas, me idolatravam.

Tu, meu grande amor, de olhar aniquilado e consternado 
nada, nadinha me disseste, quando de ti me aproximei
aninhando-me no teu peito, sentido e já quase parado
beijando-te, vezes sem conta, na hora e sem demoras.
Foi difícil vencer o meu Adamastor, que parecia de ferro
com todas as infraestruturas, muito mais que seguras
mas tu sabes que, para além do sentimento, o ditado dita
"Água mole em pedra dura, tanto bate, até que fura".
Aceita-me, deixa-me ser como sou, unicamente na escrita!


CÉU

sábado, 21 de fevereiro de 2015

CÂNTICO BRANCO

"Vem por aqui" - digo-te, terna e mansamente
enquanto abro os braços, num vasto abraço
quase certa de que seria muito bom para ti
se me desses ouvidos, se me escutasses.
Quando te digo, docemente: "vem por aqui"
olhas-me, vaga e desprendidamente
(há, nos teus olhos, um mar de sargaços) 
enrolando os braços, vazios, desencontrados
e nunca vais por ali...
Julgas que a tua vitória, é, convictamente
gerar desentendimento, mágoa, sofrimento
não estender a mão a quem dela precise
porque tu vives nessa angústia, nessa dor
desde que abriste os olhos ao mundo, Amor.
Dizes não, não vou por aí!
Só vais por onde te levam os teus pés...
e se quando perguntas, ninguém te responde
escusado será dizer-te, sempre, "vem por aqui"!
Assim, preferes cair nos becos enlameados
rodopiar nos ventos das destemperanças
dilacerares-te nas navalhas da insegurança
como um trapo, como um humano farrapo
a ires por ali...
Pensas que vieste a este mundo padrasto
apenas para que uma mulher fosse desflorada
somente para espezinhares este tenebroso chão
porque tudo o que fazes, afirmas, vale nada. 
Portanto, como poderão os outros, os tais
aconselharem-te meios, darem-te forças
para que possas derrotar o teu Adamastor?
Circula nas veias desses, sangue sem ideais
e esses gostam de situações descomplicadas
enquanto tu, adoras o Desconhecido, a Ilusão
a Aventura, a Viagem, que pode não ter volta.
É melhor que partam, que te deixem, pedes-lhes
pois eles têm casa, mesa, país e jardins sem fim
têm vontades, vaidades e alegrias mascaradas
têm leis obsoletas, apropriadas e intelectualizadas 
enquanto tu possuis e preferes a tua Demência
que te faz sentir diferente, consciente e genuíno
nesta convenção, neste tratado, nesta aparência.
Só Deus e o Seu mas sábio anjo gerem a tua vida
somente a eles e a mais ninguém a entregaste
e só a eles cedes, e tão cegamente, obedeces 
pois todos os outros tiveram mães, tiveram pais
mas tu que acreditas, não ter princípio nem fim
como alguém inadaptado, fora do jogo, alheado
que nasceu do (des)amor entre o Bem e do Mal
suplicas, ciente, que ninguém te forneça indicações
que ninguém te questione, ou te peça explicações
"Que ninguém te diga: "Vem por aqui"
porque a tua vida é um temporal, que se desatou
é uma vaga gigante e dantesca, que te abalroou
 é algo muito, muito pequenino, que se alvoroçou
e não sabes, por isso, por onde ir
e não sabes, por isso, para onde ir
mas sabes, por isso, que não irás por ali.
Então, e se assim é, fica comigo, aí ou aqui.

(Versão oposta ao poema "Cântico Negro" de José Régio)


CÉU 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

SÚPLICA

Meu amor, não notas, não vês nos meus olhos desejos
na minha língua, nos lábios, na boca, aquela sede
de um beijo longo, húmido, profundo, saboroso, farto
nos meus ávidos braços, a fome dos teus abraços
nas minhas mãos lassas, quentes, esguias, pungentes
tu não  notas, tu  não vês, que  nas minhas  veias
o sangue brota e jorra, desencaminha-se e te implora? 

Deixa-me pegar, ficar, espalhar, semear o meu delírio
em ti, e em tudo aquilo que fantasio, invento e crio
em forma de temporal violento, drástico e assustador
todo corpóreo, urgente, todo devasso, convergente.
Então, acaricia, excita, desmistifica, beija e mordisca
os  meus  seios  já fartos e  inchados  de  esperar
pela tua língua poligâmica, de fogo, incrível, vulcânica.

Subverte-me, segura-me, amotina-me e desatina-me
não obedeças, não, antes insiste, persiste e viola
a minha ribeira brava, assustada e nunca explorada 
num balanço  e ritmo elétrico, ousado  e frenético
sem lençóis, sem véus, sem pudores, mas com sóis
enquanto o desejo cresce e o frémito acontece
e tudo no teu corpo, sem pensar, endurece e acontece.

Quer surjam, aconteçam vendavais, com prantos e ais
quer  casas, paisagens, em  derrocada, feneçam
jazeremos no cimo da adversidade, sim, sem temor
de mãos dadas, firmes, determinadas e aliadas
de olhos nos olhos, mentes livres e desassombradas
de bocas ao rubro, indivisíveis e entrelaçadas
lançando, soltando suspiros, uivos, palavrões, gemidos.

Os nossos poros, fiéis e submissos dilatam-se na brasa 
no  âmago e  no ápice febril, que  nos enlouquece
naquela mistura bem quente, de corpos dependentes
na  rendição, aglutinação  e na fundição de nós
naquele amor puro, na confluência das nossas águas
que deslizam e correm, apressadas para a foz
suplicando-nos, ela, a continuação saborosa, já sem voz.


CÉU    

NOTA

ESTE BLOGUE FOI CRIADO A 14 DE FEVEREIRO DE 2015

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