sexta-feira, 2 de setembro de 2016

SIM!

Naquele quarto, iludido, paraíso onde preparei a noite
dei pela tua entrada, silenciosa, desejosa, conivente
de respiração prudente, ou melhor, quase ausente
enquanto o coração parecia querer saltar-me do peito
fugindo, trepando, galgando, esmagando-me a boca
que travou aquele insubordinado e tarado, a tempo
com um engolir prolongado, tão seco e descontrolado
que decerto metia dó e faria piedade a toda a gente
encostando-me, eu, por instinto, à parede alarmada
no cantinho mais recôndito e menos acessível da porta.

E agora? O que me espera? O que farei?
Não importa! Estou prestes a reencontra-lo
naquela magia tântrica dos meus olhos
e na loucura sadia da minha cegueira.

Com o tato penetraste e violaste o escuro. Achaste-me.
Não falaste, mas ouvi a tua voz no meu corpo todo
no mais comunicativo, doce e convidativo silêncio
que se soltou ao toque dócil e tórrido das tuas mãos
habituadas, sabedoras, experientes, conhecedoras.
Vem! Não tenhas receio, disseste, muito baixinho
incitado pelo desejo, tão desorientado e desidratado
e a tua respiração, tão perto da minha, pobrezinha 
sentia-a, obtinha-a, guardava-a, comia-a, possuía-a
sem ao menos dar a entender, sugerir, avisar ou pedir.

E se eu avançasse um passo? Seria bom?
Hum! Quero descobri-lo de olhos fechados 
embora de sentidos já desacostumados
destas movimentações e destas lides.

Beijaste, seguraste as minhas mãos frias com as tuas
aumentando, gradualmente, o livre aperto, o cerco
e quando já quentes, aninhaste-as numa das tuas
e com a outra, observaste linhas visíveis e invisíveis
as teias, formas de relevo e o pulsar das veias.
Permaneci quietinha, não ousando retirar as mãos
liberta-las, dar-lhes inteligência e independência
mas, também não saberia bem o que fazer com elas
com o corpo e com a cabeça, assim, tão trouxa-mocha
no entanto, os pensamentos tinham orientação e vastidão.

Estás calma? Estou! Continuo a confiar em ti.
Confusa? Talvez! Sinto vertigens e náuseas
como quando sou apanhada de surpresa
por algo excelente, que não espero. 

Conduziu as minhas mãos ao seu corpo inteiro, primeiro
percorrendo com elas o que estava saliente, quente
e eu, de repente, dei-lhes liberdade incondicional
como as aves fazem às crias, quando já sabem voar
sem raciocinar, sem prever consequências, sem parar.
Toquei-lhe e afaguei-lhe os lábios, já descolados
fiz uma festa leve no queixo e nas faces acaloradas
ascendi-lhe aos olhos, fiz tranças das suas pestanas
contornei-lhe, atrevida e enlouquecida, as sobrancelhas
acetinadas, chamativas, esfomeadas, desamparadas
e penetrei os seus cabelos com dedos ingénuos e ternos.

Um rosto aprazível? Sim, de homem perene.
Pele vincada? Um bocadinho, mas muito cuidada.
O cabelo menos farto, mais sedoso e curto
tal como o imaginava e desejava.

Enquanto lhe desbravava e conquistava o sereno rosto
ele, descontroladamente, deu um passo em frente
descendo-me as mãos pelos braços e antebraços
parecendo querer afagar e apreciar cada átomo meu
numa química paranormal, única e transcendente.
Embrulhou-me os ombros, desceu lentamente às axilas
continuou a suave caminhada pelo tórax e abdómen
que, de tão acariciado, se tumultuou, abriu e revelou
e travando-me na cintura, que como prostituta, se deu
sem quês, nem porquês, sem pensar e sem sequer hesitar.

Não sabia eu que o meu peito era tão arfante!
Ah, quanta perturbação! Mais êxtase e excitação.
Os gestos, os murmúrios daquelas carícias
desconcentraram-me e motivaram-me.

Puxou-me para ele devagarinho e abandonou-se em mim
mantendo-me atada, presa e escravizada pela cintura
ficando eu a sentir o seu corpo inteiro, todo, uma doçura
enquanto as minhas mãos hábeis souberam, intuitivamente
como atuar, as tarefas a cumprir e sobretudo fazer sentir.
Assim, desceram-lhe pela nuca e massajaram-lhe as costas
repousando nelas, alguns momentos, e depois no peito
que senti estremecer ao alisar os pelos louros e espaçados
tal como dantes, quando a camisa de linho desenvolta
se abria, despudoradamente, assim, tão livre, louca e solta.

Tenho de agradecer ao escuro daquele quarto
por ser impossível ver as vontades do meu olhar
o rubor, os desejos, ah, tanto furor em mim
que ele sentiu, sem luz, mesmo assim.

O meu corpo, inteirinho, maluquinho, estava alerta, agora
pois os estímulos eram enviados, recebidos e captados
com uma racionalidade, que era mais que animalesca
enquanto a perceção, por contacto, ia-me tomando
poro a poro, causando-me fomes e anseios arrasadores.
Senti-lhe um leve tremor das mãos e eu tremi em sintonia
fechando os olhos, fervilhando num arrepio, abrasador
deixando eu fugir, sem querer, um gemido brando e tanto
estremecendo, quando ele me beijou e chupou os seios 
num gesto, quase loucura, mais que devaneio, todo procura.

Continua com um corpo bonito, como dantes
e nem eu mesma sei como consigo resistir a isto
pois a carga dos sentidos é tão devastadora
que receio deixar de pensar. Receio!

Comportei-me, como dantes, como outrora.
Não fui capaz, não consegui ser senhora de mim.
Mas, quem resiste a tanto chamamento, ora?
Se estiver inanimado, ah, pois, só assim!

Com o seu rosto subtil, tocou, afagou e lambuzou o meu
e os seus lábios, rosados, carnudos, fartos e ousados
delinearam todos os meus contornos, mas que perfeição
incendiaram a minha pele e apanharam-me a boca, a jeito
num beijo que a fechou e que quis aprofundar e prolongar.
Uniram-se, cruzaram-se e fundiram-se os cheiros e sabores
transpirações, intenções, amores passados e respirações
que, finalmente, se libertaram e se explicaram, sem demora
regressando o encanto daquela voz, que tantas vezes ouvi
roubando-me, espontaneamente, um grande e convicto sim
guardado na garganta, há muitos, muitos anos, enclausurado.

Não faz mal, não tem importância, dissemos!
Já nos conhecemos há tanto tempo. Continuaremos!
A voz dele, rouca, do ex-cigarro companheiro
trespassou a minha, num efusivo beijo.


CÉU