sexta-feira, 14 de outubro de 2016

QUEM DIRIA?

Imagino-te nu, acariciado por um lençol de linho
que perfumas com o odor da tua pele.
Paralisas-me, tiras-me a vida, por momentos
mas sorris e eu atrevo-me a sonhar e a avançar.
Enquanto o faço, mordo os meus lábios
já desidratados de desejo.
 
A pouco menos de um metro de distância de ti
pareço que estou a percorrer o infinito
numa encenação dramática, que não sei parar.
Não desviando o olhar, atrais-me, inclemente
como polo positivo atraí o negativo
desarmando-me o raciocínio. 
 
A um passo da cama, puxas-me, abruptamente
e caímos os dois num beijo prolongado
lindo e há tanto esperado. Já o merecíamos.
Arrepias-me com as tuas mãos frias, dementes
tirando-me a roupa, que estraçalhas
espalhando-a pelos cantos.
 
O cenário não podia ficar mais tórrido e calórico
quando numa atitude de adolescente
atiras as minhas roupas pequeninas e íntimas
para a lareira, que crepitava como nós.
As chamas, dela e nossas, inventaram cores
que sublimaram as do arco-íris.
 
O apetecer e o prazer estavam já criados, agitados
os corpos abriam-se, cediam à tentação
suados e encharcados, roçavam-se um no outro
fazendo desatar um furacão de ternura
enquanto os móveis, os quadros e os retratos
abriam a nossa fome desordeira.
 
Isso, pouco ou nada nos importou, nem atrapalhou
pois queríamos viver o momento único.
Quantos cabelos meus foram afagados, puxados
pelas tuas mãos ansiosas e impiedosas?
Quantas promessas, quantas juras de loucura
fizemos arrebatados de paixão?
 
Quiseram-se então estilhaçar num ápice, no clímax
em que os gemidos agudos, lânguidos
deram continuidade às cinzas da nossa entrega.
Nada mais existia. Ficámos cegos de amor
naquele jogo de sedução, cumplicidade e doação
jurando por Deus, a eternidade.
 
Amor, estou pronta! Envolvida num lençol de linho
guardo no pescoço o colar que me deste
naquele dia, do nosso primeiro e único encontro
adornando com ele a minha pele.
Não mo tires! Rogo-te, suplico-te! Não me deixes!
Deixa-me voltar a mim, a ti!
 
Dizes que já me não amas e até que me esqueceste.
Quem diria? Peço-te, então, um favor!
Repete, repete lá isso, em alto e bom som
para eu acreditar, meu amor!
 
 
CÉU

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

SIM!

Naquele quarto, iludido, paraíso onde preparei a noite
dei pela tua entrada, silenciosa, desejosa, conivente
de respiração prudente, ou melhor, quase ausente
enquanto o coração parecia querer saltar-me do peito
fugindo, trepando, galgando, esmagando-me a boca
que travou aquele insubordinado e tarado, a tempo
com um engolir prolongado, tão seco e descontrolado
que decerto metia dó e faria piedade a toda a gente
encostando-me, eu, por instinto, à parede alarmada
no cantinho mais recôndito e menos acessível da porta.

E agora? O que me espera? O que farei?
Não importa! Estou prestes a reencontra-lo
naquela magia tântrica dos meus olhos
e na loucura sadia da minha cegueira.

Com o tato penetraste e violaste o escuro. Achaste-me.
Não falaste, mas ouvi a tua voz no meu corpo todo
no mais comunicativo, doce e convidativo silêncio
que se soltou ao toque dócil e tórrido das tuas mãos
habituadas, sabedoras, experientes, conhecedoras.
Vem! Não tenhas receio, disseste, muito baixinho
incitado pelo desejo, tão desorientado e desidratado
e a tua respiração, tão perto da minha, pobrezinha 
sentia-a, obtinha-a, guardava-a, comia-a, possuía-a
sem ao menos dar a entender, sugerir, avisar ou pedir.

E se eu avançasse um passo? Seria bom?
Hum! Quero descobri-lo de olhos fechados 
embora de sentidos já desacostumados
destas movimentações e destas lides.

Beijaste, seguraste as minhas mãos frias com as tuas
aumentando, gradualmente, o livre aperto, o cerco
e quando já quentes, aninhaste-as numa das tuas
e com a outra, observaste linhas visíveis e invisíveis
as teias, formas de relevo e o pulsar das veias.
Permaneci quietinha, não ousando retirar as mãos
liberta-las, dar-lhes inteligência e independência
mas, também não saberia bem o que fazer com elas
com o corpo e com a cabeça, assim, tão trouxa-mocha
no entanto, os pensamentos tinham orientação e vastidão.

Estás calma? Estou! Continuo a confiar em ti.
Confusa? Talvez! Sinto vertigens e náuseas
como quando sou apanhada de surpresa
por algo excelente, que não espero. 

Conduziu as minhas mãos ao seu corpo inteiro, primeiro
percorrendo com elas o que estava saliente, quente
e eu, de repente, dei-lhes liberdade incondicional
como as aves fazem às crias, quando já sabem voar
sem raciocinar, sem prever consequências, sem parar.
Toquei-lhe e afaguei-lhe os lábios, já descolados
fiz uma festa leve no queixo e nas faces acaloradas
ascendi-lhe aos olhos, fiz tranças das suas pestanas
contornei-lhe, atrevida e enlouquecida, as sobrancelhas
acetinadas, chamativas, esfomeadas, desamparadas
e penetrei os seus cabelos com dedos ingénuos e ternos.

Um rosto aprazível? Sim, de homem perene.
Pele vincada? Um bocadinho, mas muito cuidada.
O cabelo menos farto, mais sedoso e curto
tal como o imaginava e desejava.

Enquanto lhe desbravava e conquistava o sereno rosto
ele, descontroladamente, deu um passo em frente
descendo-me as mãos pelos braços e antebraços
parecendo querer afagar e apreciar cada átomo meu
numa química paranormal, única e transcendente.
Embrulhou-me os ombros, desceu lentamente às axilas
continuou a suave caminhada pelo tórax e abdómen
que, de tão acariciado, se tumultuou, abriu e revelou
e travando-me na cintura, que como prostituta, se deu
sem quês, nem porquês, sem pensar e sem sequer hesitar.

Não sabia eu que o meu peito era tão arfante!
Ah, quanta perturbação! Mais êxtase e excitação.
Os gestos, os murmúrios daquelas carícias
desconcentraram-me e motivaram-me.

Puxou-me para ele devagarinho e abandonou-se em mim
mantendo-me atada, presa e escravizada pela cintura
ficando eu a sentir o seu corpo inteiro, todo, uma doçura
enquanto as minhas mãos hábeis souberam, intuitivamente
como atuar, as tarefas a cumprir e sobretudo fazer sentir.
Assim, desceram-lhe pela nuca e massajaram-lhe as costas
repousando nelas, alguns momentos, e depois no peito
que senti estremecer ao alisar os pelos louros e espaçados
tal como dantes, quando a camisa de linho desenvolta
se abria, despudoradamente, assim, tão livre, louca e solta.

Tenho de agradecer ao escuro daquele quarto
por ser impossível ver as vontades do meu olhar
o rubor, os desejos, ah, tanto furor em mim
que ele sentiu, sem luz, mesmo assim.

O meu corpo, inteirinho, maluquinho, estava alerta, agora
pois os estímulos eram enviados, recebidos e captados
com uma racionalidade, que era mais que animalesca
enquanto a perceção, por contacto, ia-me tomando
poro a poro, causando-me fomes e anseios arrasadores.
Senti-lhe um leve tremor das mãos e eu tremi em sintonia
fechando os olhos, fervilhando num arrepio, abrasador
deixando eu fugir, sem querer, um gemido brando e tanto
estremecendo, quando ele me beijou e chupou os seios 
num gesto, quase loucura, mais que devaneio, todo procura.

Continua com um corpo bonito, como dantes
e nem eu mesma sei como consigo resistir a isto
pois a carga dos sentidos é tão devastadora
que receio deixar de pensar. Receio!

Comportei-me, como dantes, como outrora.
Não fui capaz, não consegui ser senhora de mim.
Mas, quem resiste a tanto chamamento, ora?
Se estiver inanimado, ah, pois, só assim!

Com o seu rosto subtil, tocou, afagou e lambuzou o meu
e os seus lábios, rosados, carnudos, fartos e ousados
delinearam todos os meus contornos, mas que perfeição
incendiaram a minha pele e apanharam-me a boca, a jeito
num beijo que a fechou e que quis aprofundar e prolongar.
Uniram-se, cruzaram-se e fundiram-se os cheiros e sabores
transpirações, intenções, amores passados e respirações
que, finalmente, se libertaram e se explicaram, sem demora
regressando o encanto daquela voz, que tantas vezes ouvi
roubando-me, espontaneamente, um grande e convicto sim
guardado na garganta, há muitos, muitos anos, enclausurado.

Não faz mal, não tem importância, dissemos!
Já nos conhecemos há tanto tempo. Continuaremos!
A voz dele, rouca, do ex. cigarro companheiro
trespassou a minha, num efusivo beijo.


CÉU 


terça-feira, 2 de agosto de 2016

domingo, 26 de junho de 2016

MORTE PEQUENA

Sem eu saber lá muito bem de onde vinha
aquele cálido soprar, aquele bafejar
nos meus cabelos, no rosto e no corpo
que o recebia, o aquecia e crescia
ao contacto intenso e galopante do teu
num estado eufórico, louco.
 
Um encontro doce e de indescritível prazer 
tonificado, já em pedra, solidificado
viril, destemido, de rompante, abusivo
desordeiro, mas afável e seduzido
pela agitação e excitação do meu corpo
contra o teu, quase fogo.
 
E queres e apoderas-te logo, logo de mim
tomando, perseguindo, conseguindo
o achar, o realizar do ponto de encontro
sonhado, desesperado, prometido
e o beijo com que me enlaças a boca
ah, sabe-me a pouco!
 
As mãos ávidas, que queimam as roupas
abrem veredas, matas, estrelas
e os olhos olham-se, falam, chocam-se
e tu ensinas-me o caminho, guias-me
nesta força, neste impulso forte, convexo
estendendo a passadeira vermelha
escancarando todas as portas ao sexo
já a babar-se, tão frouxo!

Conheço, sei de cor, os teus íntimos sinais
os gemidos, os gritos e os ais
a voz, a tua voz, querendo, exigindo
mais, sempre mais e mais
e a tua língua dominadora e guiadora
levando-me, pouco a pouco.

Finos e fortes perfumes, odores e sabores
e falo erguido, pronto, incontido
meu amor, vem, minha língua dançarina
ao teu render, quase vindo
em avalanches, pérolas e brilhantes
espessos, de muco, de ouro.

Manobras-me, manuseias-me, dobras-me
como flor breve, à mercê, leve
nas tuas mãos, desfalecendo, morrendo
e segues o vento, quente
num voo despótico, sensual, erótico
e quando paras, és beijo rouco.
 
E eu em delírio, febre, subindo, trepando
e tu em mim, feliz, naufragando
e tu em mim investindo, alagando-me
e eu usufruindo e gostando
até que as palavras, os uivos, os gritos
aconteçam da morte pequena.
 
E depois e logo de seguida, e sem parar
as coordenadas dos sentidos
contorcem corpo e alma, em espasmos
em estrofes brancas e bordadas
que inventei e escrevi com o teu sémen
escorrendo devagar, aliviado
pela vegetação e botão da pradaria
que estremece e se agita e enlouquece
de prazer fundo, extenso, profundo
e somos só dois, nós, tu e eu
jazendo ali, anarquizados e sagrados
fazendo o amor deste e de outros mundos.


CÉU 

terça-feira, 7 de junho de 2016

AMO-TE!

Espero-te por entre os silêncios escuros da noite 
entre sombras e luzes, físico alvoroçado
lugar onde te descaro com a minha silhueta
abrindo-te o meu mundo, inteirinho
que o teu corpo absorve, delirando de vida
num beijo inesquecível e prolongado
que a minha boca te oferta sem contrapartidas.

Vens mansinho e devagarinho, como uma brisa
escondendo-te por entre as árvores
esperando que o sol parta e a noite se faça
passas pelos meus cabelos esvoaçantes
demorando-te neles, acariciando-os, famintos
nas danças das tuas mãos sem coreografia
treinadas, no entanto, em matérias de anatomia.

O céu já turvo, resolveu preencher-se de estrelas
e do nada fiz-me corpo tagarela, sem trela
encostando os meus seios hirtos às tuas costas
enquanto as tuas mãos me procuram
imaginando-me colada a ti, mais que feitiço
interiorizando toda a tua essência
engrandecendo-me e conduzindo-me ao paraíso.

Tocares-me será sempre miragem enternecedora
em que o teu corpo clamará pelo meu
nesse deserto injusto e intruso da nossa vida
e beberes-me será a melhor água fresca
que nasce neste aprazível oásis, a minha boca
e beijares-me será apenas um sonho
na polpa dos teus lábios ávidos, urgentes, carentes.

Não penses e entrega o teu corpo ao meu, assim
saboreando cada toque, cada vontade
e na música, os nossos corpos comprimem-se
fusão de curvas, retas e concavidades
exigindo o inevitável orgasmo, materializado
num ápice indescritível e invisível
que nos faz prolongar o instante para a eternidade.

Amo-te na existência material de ti e de mim
na ausência permanente, evidente
como ar abençoado e louvado, moldado
fazendo-me purificada, sagrada e imaculada
onde sou estátua, de sumptuoso olhar
utopia, amor, paixão, sentimento e doação
flor que exala o seu perfume e lume no tempo certo.

Amor é, como sabes, muito mais que tudo isto
é a pura forma de querer concretizar
de desejar-te e sentir-te em mim, sempre
e ter eu a certeza, e tu a convicção
que podem vir ventos, temporais, vendavais
a terra pode até mesmo terminar
que hoje, amanhã, depois, para sempre, serei, tua.


CÉU

sábado, 21 de maio de 2016

ACORDA COMIGO, AMANHÃ!

Entrega-me todas as partes, claras e escuras, desse teu corpo
desencarcerando, alforriando e saciando essa vontade
e deixa-me pesquisar, mergulhar e saborear essa tua boca
esses lábios carnudos, rosados, infiéis e tão ousados
que me provocam agasturas e sede, patologias sem rede e cura.

Vá lá, faz o que te digo! Tira peça por peça, assim, sem pressa
interessa-te, arremessa-te, cobiça e atiça a minha cama
que é de ferro, frio e resistente, ao contrário de mim e de ti
e não tenhas receio de te enroscares na minha língua
de te drogares e viciares em afagar, lamber e chupar a minha pele.

Mesmo que isto te pareça um desvario do período pré-ovulatório
revelando, maior desejo de sexo, quem saiba, sem nexo 
exalando uma sedução descarada, irresistível, desavergonhada
não te questiones, nem reprimas, e muito menos te domes
antes toca, acaricia, desenvolve, avança e prova, exaustivamente.

Sei que sou aquela que te conduz e transporta a voos irreverentes
a monopólios de carícias, gosto e gozo, ainda por inventar
aquela que consegue alvoroçar a tua tranquilidade e serenidade
a que faz detonar e rebentar os teus preceitos e preconceitos
que são só fogo de vista, como tu muito bem sabes, falso moralista.

Pretendo, então, assistir ao espetáculo da libertação do teu desejo
escorrendo, abundantemente, pelas tuas coxas e pernas
enquanto eu vou rasgando e estraçalhando o teu aparente medo
que vai cair por terra, inevitavelmente, ora, homem, pudera
pois és igualzinho aos outros, em atuação, e a ocasião faz o ladrão. 

Eu tenho sonhado, de olhos abertos e despertos, e andado por aí
até que toda a tua pele, escorregadia, apetecível e luzidia
se rebele e se amotine, transpirando loucura, frémito, ternura
mostrando-me os teus sinais mais recatados e privados
que desejo e exijo trincar, morder, beijar e degustar, efusivamente.

Talvez julgues, não ser este o momento mais sensato e apropriado
por não saberes se estou, se vivo sozinha ou acompanhada
mas, não penses nisso, pois sou prudente, recatada e decente
de tal maneira, que te desafio a bateres à minha porta
entrando e deixando que te tire a roupa, sem quaisquer cerimónias.

Permitido, realizado e consumido o ato, verás que sou uma senhora
diva, mulher, imperatriz, deusa, ninfa, meretriz e cortesã
que te pergunta, de imediato, a bebida que queres ou preferes
à qual a tua boca já não é capaz de escolher e responder
libertando-se do teu pensar e olhar a frase: acorda comigo, amanhã!

Antes de dizer já que sim, tenho de revelar-te que tenho alucinações
de todo transcendentais, sobretudo à noite, insólitas e fatais
que sou caçadora de astros, como estrelas, planetas e cometas
que sei estarem guardados para mim, no céu da tua boca
fazendo eu coisas terríveis, para os obter, agindo pior que uma louca.

Então, e depois desta minha revelação e confissão, aceitas a situação?


CÉU

sábado, 9 de abril de 2016

AGRADECIMENTO PÚBLICO
 
A todos os que por aqui passaram e também aos que deixaram a sua mensagem, o meu muito obrigada.
Um dia destes, eu e as palavras, voltaremos.

Até breve!

segunda-feira, 21 de março de 2016

ASSALTO À MÃO DESARMADA

COMEMORA-SE, HOJE, DIA 21 DE MARÇO, O DIA MUNDIAL DA POESIA. EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO!

Palavra de honra, afirmo, juro que eu não sabia de nada
tinha acabado de chegar a casa, era já noite cerrada
estava a despir-me, apressada, mas sossegada
para me pôr à vontade, sem espartilhos e desafogada
preparando-me para o apetecível e aprazível banho 
quando senti alguém meter uma chave na porta de entrada.

Fiquei muda, em pânico e pensei que só podia ser ladrão
que de maneira sofisticada, profissional, na perfeição
se preparava para tudo me roubar e até me violar
e eu sozinha neste casarão. Meu Deus! Que aflição!
Encostei-me bem devagarinho à parede e baixei-me
para tentar resguardar-me do perigo e do misterioso vilão.

Enquanto ele caminhava, lento, eu nem sequer respirava
pois tinha receio que ele pressentisse o meu bafo
chegando, dessa forma, mais depressa a mim
pondo em risco o meu corpo e a minha vida, decerto
que tanto adoro, valorizo, aprecio, que desejo e prezo
e ser assaltada, daquele modo, era algo que não desejava.

Aproximou-se do meu cantinho, esconderijo do meu céu
que vasculhou, sorridente, carinhoso e paciente
até que me achou, me tomou, me abraçou e beijou.
Fiquei sem ação, perturbada, calada e assustada
pois era ele, vindo de longe, outra vez, asseguro-vos
para me raptar como à bela Cinderela dos contos de fadas.

Nua, deitada no peito dele, sentia-me bem, mas tremia
não sei se de pavor, fascínio, medo ou amor
e só de estar a falar, a relembrar este caso verídico
sinto a invadir-me, de alto a baixo, um arrepio
que me entusiasmou, embora com receio no momento
mas que já não consegui fazer parar ou disfarçar, a tempo.

Como o chão do meu quarto era soalho e não atapetado
ele foi tirar do roupeiro mantas boas e quentinhas
para me tapar e aquecer, deixando assim eu de tremer.
Gostei do gesto e fiquei emotiva, devo confessar
pois ele continuava a ser o mesmo amante maravilhoso
com atitudes que ficam bem e que serão sempre de louvar.

Pouco a pouco, o meu corpo foi aquecendo e cedendo
deixando que ele partilhasse as mantas comigo
que, tão bem, nos conheciam, sabiam e entonteciam
ficando ali, em comunhão, naquela fogueira
que nos ia amolecendo e derretendo, corpo e alma
numa cedência doce, sem reservas, com mútuas entregas.

Com requinte e distinção, atributos que já lhe conhecia
afastou-se do vulcão, que o conduziria à erupção
dirigindo-se à banheira circular por ele pensada e usada
mergulhando nela, sem emitir sequer um murmúrio
para não dar a entender o que iria ali acontecer
porque conhecia muitíssimo bem a minha maneira de ser.

Do sítio onde estava, espiava toda a sua movimentação
os cuidados exagerados e os bons sais utilizados
numa exacerbada sensibilidade, luxúria e sensualidade
não ficando um nique da sua apetitosa anatomia
sem ter sido visitado e revisitado e muito bem lavado
na água perfumada, que o banhava, alindava e excitava.

Sossegado e reclinado, olhou-me de flor rubra na mão
atitude pensada, pois, preparação e provocação
que me começava a intrigar, a questionar e a irritar
pois, desconhecia o que ele tinha maquinado
mas talvez me estivesse a convidar para o banho
não, não houve nem um sinal para tal. Que estranho!
Fingindo ignorar a cena, saí do quentinho e fui desanuviar.

Ao meu primeiro passo, saiu da banheira, assustado
barrou-me o caminho, pegando-me ao colo
afagando-me e percorrendo-me da cabeça aos pés
sem hipóteses de eu proferir algo ou agir
porque guardou a minha boca na sua, com firmeza
como ave de rapina obtendo, mantendo indefesa a presa.

Estava criado o cenário para uma entrega completa
que me aliciava, que nadinha, eu recusava
pois a minha mente já não pensava e só desejava
e o meu corpo, vontade, anseio, fogo posto
abriu-se e acendeu-se ao dele, em combustão viva
bem mais intensa e resplandecente, que o luar de agosto.

Sem que eu desse por isso, colocou-se atrás de mim
deslizando as mãos hábeis pela minha pele
o maior órgão do corpo, inflamável, mas agradável
de forma ressabiada, treinada, provocante
mas, eu, a descarada, digo-vos, não me fiz rogada
esquecendo, de todo, a honestidade, o rigor e a decência.

Ele, que já nem me via, nem ouvia, quase em coma
avançou em contramão, naquela excitação
que não conhecia regras e sinais, e não obedecia
num desabrido rodopio, de cor, um desvario
que lhe deu para fazer perícias com os meus seios
mostrando que era um exemplar e experiente condutor.

Pôs à volta dos meus mamilos, hirtos e enrijecidos
doce de tâmaras e frutas tropicais e orientais 
sabendo que gostava que me enfeitasse e provasse
num jogo de fatal sedução, afetos e paixão
convidando-me a uma orgia, bacanal bilateral, magia
fazendo-me vítima desrespeitada, mas que pretendia folia.

Que jogo tão bem explanado no tabuleiro ressabiado
onde não faltou a minha fértil imaginação
pois sabia que podia ser atriz, senhora e meretriz
e assim alcancei-o pela boca, que louca
pondo a minha língua a travar para que não falasse
atitude que não compreendeu, ficando perdido, alarmado.

Para salvar isto, aproveitei para beijá-lo e sufocá-lo
descendo pelo seu corpo todo, excitando-o
até que ouvi os primeiros gemidos, suspiros, gritos
tal como o produto espesso, sem corantes
que tanto ansiava que, apenas uma vez, provasse
suplicando-me que eu naquela noite, o experimentasse.

Aflita, não o desejando dececionar, acedi ao pedido
de uma forma indireta, fugindo à tradicional
e pus as mãos sobre o seu baixo ventre
que já estava em rebelião e tamanha ereção
massajei, melhor que profissional, de seguida agitei
o seu falo e zonas circundantes, que exigiam
iniciando calmamente, e logo a seguir, velozmente
enquanto olhava os seus olhos fechados
sentindo-me personagem principal, decisiva, afinal
e como tal, assisti à inundação paranormal.

Passados alguns instantes, acendeu os olhos vivos
deixando transparecer barriguinha cheia
e puxou-me para cima dele, de forma selvagem
beijou-me e sujou-me toda, o tonto
dizendo que o mundo podia acabar naquela hora
porque sentira o melhor momento da sua vida
com a mulher única, perfeita e eleita.


CÉU

domingo, 21 de fevereiro de 2016

QUEM SABE LÁ!

Não digas nada, por favor, amor! E aliás, nem precisas falar
pois tenho a certeza absoluta que procuras em mim
o lugar almejado e idílico, o paraíso perdido, qual Adão
mortinho, louco, prontinho a trincar a maçã do pecado
procurando nesse gesto a prometida e ambicionada salvação.

Meu corpo à vela, desamparado, sem mastros, desancorado
transborda em rios, ímpetos de prazer, apto a bolinar
que sei que sentes em ti, como se fosses tu o meu lume
que sei que sinto em mim, como se fosse meu o teu fogo
que me desnorteia e ateia com tanta intensidade e facilidade.

Sinto o calor da tua pele alastrando e irradiando pelo universo
como um sol que não parece quente, mas afinal queima
tal como brasas, esquecidas e adormecidas entre as cinzas
que anestesiam os sentidos, extasiados e direcionados
à nossa lareira íntima, aconchegante, em polvorosa e excitante.

A tua alma em chamas, inebriada, trespassa o escuro do quarto
cruzando céus turvos e mudos e atravessando chuvas
desfazendo-se num arco-íris inovador, surreal, um aparato
deixando cintilar a minha noite como a aurora boreal
luz dos sonhos que em mim soletras, acordas e despertas
brilho do teu olhar, arriscado, indecente, mas que parece cordato.

O teu sorriso e a tua boca descortinam e desatinam o meu corpo
centro de gravitação e agitação, morada onde te recebo
de famintos e absintos braços, que me suscitam e instigam
ao encontro dos teus, infinito, delimitado, desesperado
na longa espera de ti, soltando-se odores de jasmim no ar
entontecendo-me e enlouquecendo-me, de imediato, ao chegares.

Irei rececionar-te de corpo todo aberto, escancarado e descarado
permitindo-te penetrar em mim sem qualquer sussurro
com a firmeza e dureza do teu caule, incêndio do teu espírito
que nos implora, sacode, consome e devora pela noite fora
onde te apoderarás de mim como esconderijo até à eternidade
abrigo que enalteces e onde fenecerás de livre e espontânea vontade.

Hoje, esta noite, irás possuir-me, sentir-me e tomar-me como tua
como se o meu corpo fosse secreto e nunca por ti aberto
lugar de loucuras e aventuras lascivas, incríveis e permissivas 
qual terra brava e imaculada, que se abre à sementeira
nesse prazer de te ter, pertencer-te, algo particular, só meu
onde serei consumida e extinguida como fogo em selva trancada
como água que a sede mata, mas inexplicavelmente não farta
uma dependência, um vício que o corpo suplica, exige e tanto precisa.

Esta minha pele com estes sinais escurinhos, levianos, moreninhos
deixam a tua alma à toa e o teu corpo em reboliço, é feitiço
que te demonstra não teres mãos suficientes para me reteres
nem corpo, nem pujança razoável para possuíres tudo
tudo aquilo que eu sou e que querias tanto abarcar e ficar
mas mesmo assim, aconselho-te a manteres a firme esperança
de conseguires ter de mim, um sinal diferente, de luz
uma lembrança viva, fincada e exclusiva, da minha passagem por ti.

Quem sabe lá! O mundo dá tantas voltas, assim afirma toda a gente
mas nada é para sempre. Não desistas! Continua a amar-me
a insistir na conquista, usando todas as armas mais que previstas
pois a tua princesa, como me chamas com ternura e noção
pode ser que, um destes dias, perca o jeito, a palavra de rainha
e entre na tua teia, tão bem urdida e merecida, e deixe lá o coração.


CÉU

domingo, 7 de fevereiro de 2016

PERGUNTA

Usa-me, abusa, besunta-me, lambuza-me e suga-me
como se eu fosse uma fruta muito sumarenta
fresca, melosa, paradisíaca, pegajosa e saborosa
elixir único e desconhecido da longevidade
e juro-te que farei de tudo, mas mesmo de tudo
para te entumecer e enlouquecer de tanto, tanto prazer.

Chega-te mais para perto, mais próximo de mim, assim
esbanja, desanca sem hesitares a tua boca na minha
na horizontal, perpendicular, vertical, tanto faz
estrangula a sede dos teus lábios nos meus
faz gargarejos lentos com os meus beijos
morde-me a ponta da língua, inteira, com avidez
entrelaça-te nela, prende-a e trava-a, de vez
para esmiuçares cada papila gustativa e sensitiva
como o teu corpo, a tua libido, suscitam e incitam
desacelerando e aliviando todos os teus caprichos e vícios.

Suplico-te que com voz rouca, contaminada e desidratada
me sussurres, me murmures palavrões aos ouvidos
até que eu fique de rastos, sem noção e tonta
pronta para a festa, para a orgia principesca
que queremos exuberante, olímpica e extravagante
em que Prometeu roubará, então, o fogo a Zeus
para o entregar a nós dois, seres mortais e imorais
sendo tu Apolo e eu Vénus, com a mais estrondosa certeza.

Faz de mim gato sapato com tirania e espantosa soberania
engole-me o fôlego todo, todo, de um trago só e largo
lambe-me os mamilos assomados, desmiolados e eriçados
provoca-me arrepios, gemidos, ais e gritos incontidos
que eu prometo, e juro-te a pés juntos, ser só tua
nem que seja por uma noite, momento de todos os tempos.

Rasga, estraçalha, despedaça o lençol de cetim branco, doce
onde há tanto te espero, guardada, intocável, embrulhada
e logo que obtida a ação, percorre-me todinha com as mãos
consola e rola pelo meu corpo nu, como se fosses água
tateia e saboreia tudo aquilo que encontrares e desejares
desce ao meu recetáculo floral, faminto e transcendental
onde as sépalas e as pétalas se agitam, contorcem e gritam
pelo teu estame rijo, fértil, providencial e descomunal
e aí, nesse lugarzinho, estaciona para mais me humedeceres
usando a língua, todos os teus dedos, sei lá, tudo o que quiseres.

O ideal será que abras todos os lábios da minha corola vistosa
até encontrares o botão das sensações, algo fundamental
onde imploro que te demores, por favor, agradecida
até que ele trema, se agite, vibre, se excite e suplique
o teu manto branco, tão espesso e abundante, um encanto
que se entrelaçará, pegará e misturará com a seiva dele
em batimentos e vaivéns ao natural, como é humano e soberano.

Continua, que já percebi que sabes mexer com os meus sentidos
bastando um toque teu para que fique molhada e inundada
com a mente confusa, perdida, obtusa, desmemoriada
obcecada por tudo o que tu tenhas e que de ti venha
sob as mais diversas formas, sobretudo as menos próprias
que me extasiam, acalmam, roubam-me até a alma e viciam-me.

Como és homem a valer, aproveitas esta minha irrelevante loucura
passeando, deslizando, treinando o teu falo pela minha boca
que fica desvairada, de todo destrambelhada, a aluada
quando experimenta, prova o sabor e inspira o odor
atividade que jamais pensou pôr em prática, fazer e satisfazer
todavia no amor e na vida, e como bem sabes, tudo pode acontecer.

Enquanto isso, tu ascendes e atinges logo e rapidamente o paraíso
não precisando já de mais nada, pois estás de barriga aviada
ficando eu no aquém, mas tu, eu sei, nem deste por nada
tendo-me visto, só, como uma escrava devotada e sem memória
que nunca fui nem sou, mas antes alguém muito diferente
que deseja que encontres em mim todas as formas de amar
todas as outras mulheres, que um dia fizeram parte da tua história.

Eu sou a adição, subtração, a divisão e multiplicação de todas elas
uma operação totalmente fora do vulgar e difícil de alcançar.
Aceitas ou queres ainda pensar?


CÉU

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

DÚVIDA

Tu és o alvorecer sagrado, ensolarado, consagrado
o mentor primordial, o comandante supremo
a luz clara, imaculada, inteligente, transparente
a estrada certa, inconfundível e desafogada
a causa da beleza da natureza e da sua perfeição
a louvada, a inquestionável, a bela pintura da criação.

Na terra, estou indiferente e longe da clarividência
dos atos desinteressados, da benemerência
prisioneira da desventura, torturante caminho
onde a soberbia, a mesquinhez e a altivez
imperam, chamando-me e sugando-me tanto
para tudo o que não presta, sem luz, mas seduz.
Imploro-te, que me ensines os caminhos da verdade
fazendo-me renunciar à superficialidade, à comodidade.

Depois, e sem nunca mais estar só no plano do bem
desperto, de vez, para a bendita entrega
com expressividade, alma e intensidade vivaz
sentindo a consciência, que é ter-te, adorar-te
algo em que jamais tinha antes pensado
num fascínio de todo surreal, paranormal, eficaz
a que não consigo dar nome, explicar, nem expressar.

Convencida que tu por mim caminhas, maravilhado
conduzindo todas as meus comportamentos
enquanto eu repouso nas searas da minha mente
sentindo o vigor das espigas, dolentes
executo cânticos de amor, elevando-me até ti
embora, tantas vezes, tenha dúvidas da tua existência.

Porém, o que mais me esmiúça, aborrece e preocupa
por maior que seja o meu esforço e devoção
é a negra realidade do avanço rápido da maldade
que quer terminar com a minha labuta
na desilusão que me fará ser somente saudade
não sendo esse o panorama, que o meu peito proclama.

Contudo, devo esperar o xeque-mate e sem demora
os momentos do adeus, o que virá depois?
Quem dera, que eu tenha obtido o estabelecido
pelo qual imensamente me esforcei e lutei
embora não saiba o que o devir me espera e reserva.



CÉU

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

SOU ASSIM

Nunca fui menina, moça, mulher padronizada
segundo moldes, trivial, adaptada
jamais senti atração pelas coisas restritas
pelas vivências fraquinhas e certinhas.
Rendo-me a amores, a orgasmos avassaladores
com cenas resolvidas com prantos e soluços
que me sufoquem e me tirem a voz, visceralmente.

Aceito da vida o que ela tem de belo e de inferno
e não habito nela para que gostem de mim
mas dela faço parte, para tudo aprender
com consciência plena, cada bocadinho meu.
Aproveito, só, aquilo que me acrescenta
e desprezo, o que me empobrecesse e decresce
pois não aceito comportamentos assim, bom de ver.

Adoro escrever poesia, desventra-la e descara-la
para que vocês sintam o paraíso, o delírio
numa mente polifacetada, que não me obedece
espalhando o que quer e sabe que aquece.
Sou sensual, erótica, intensa e imensa
e guardo no coração um amor, que me exausta
restando-me a escrita como libertação e compensação.

Sendo como eu sou, recuso, sempre, meios termos  
como, pode ser, pois, mais ou menos, talvez
preferindo as fraturas e tripas de fora
ficando eu de rastos, mas sem irrealidades.
É aí que invisto, ajudo, socorro, dou e acredito
porque o sofrimento humaniza e suaviza
não interessando as razões dessas atitudes e alterações.

Agradam-me as coisas exageradas, incontroladas
os olhares faiscantes, libertinos, fuzilantes
os gestos impensados, as palavras loucas e soltas
dizendo não a estradas, mas sim a atalhos.
Acredito em Mindanau, em verdades, profundidades
e tenho medo das latitudes, lonjuras, altitudes
mas não fujo dos abismos, dos seus condicionalismos
pois são eles que me revelam a minha autêntica dimensão.

O que me interessa mesmo, especialmente no amor
é o que ele adiciona ou subtrai de mim
quando a carência, a autossuficiência me prende
e me veste de uma solidão dura, para minorar vazios.
O amor rouba-me essa capacidade intrínseca
tirando-me a armadura que cobre esta fragilidade
julgando que faz de mim o que bem quer
mas sei bem onde quero estar e estou, e por aí, não vou.

Então, larga-me, desprende-me, liberta-me, de vez
pois sei viver sem ti, sem as tuas imposições
que só me espartilham, embaçam e embaraçam.
Saí, para sempre, daqui, estouvado, animal quadrado
que supões ter todos nas tuas garras aguçadas
mas comigo estás enganado, pois eu não sou pautada.
Então, vou dançar e soltar-me, sem liberdade condicionada.


CÉU

O MUNDO PASSA POR AQUI