terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

PAIXÃO

A minha paixão por ti é tão sincera e prudente
a tua por mim, nobre, mas irreverente
que os sentires que nos incitam e excitam
causam em nós enorme turbulência
acelerando-se quando os nossos corpos
propiciam e fazem a fusão.

Não consigo avaliar neste jogo tão verdadeiro 
se há perdedores ou se há ganhadores
embora sinta, tenha a certeza, saiba de cor
que o teu amor, quase sempre, me vence
exacerbando-se quando a tua infalível tática
rompe o silêncio propositado
enquanto que, no meu vestido encarnado
majestoso, audaz e descarado
o decote generoso, apelativo, mimoso
te prende, irresistivelmente.

Envolves-te e envolves-me num ato complexo
infringindo os meus privados desejos
desrespeitando e desautorizando, vilmente
 os meus parcos e insuficientes poderes
com fúrias e instinto de animal selvagem
que não se consegue domar
provocando no meu corpo inteiro
um abrasador arrepio, sob a forma de calor
originado pensamentos primários e ordinários
que quero praticar, dê por onde der.

Em seguida, e desejando fazer valer tudo isto
inundas-me e conspurcas-me de amor
bebemo-nos um ao outro, paulatinamente
sem desvelo, calmamente e sem gelo
comemo-nos da cabeça aos pés
numa atitude animalesca e até dantesca
fazendo pirraça a toda a gente
que não é capaz de se empanturrar  
bulimia, que nem a mais eficaz terapia
 daria para controlar e debelar.

A qualidade e a leviandade do prazer é nossa
ao deixarmos de ligar à lucidez, de vez
esquecendo regras e etiquetas
cedendo tu a tudo meu e eu a tudo teu
sem quês, nem porquês
triunfo desta guerra sem tréguas.

Quando explode a febre dócil do nosso querer
somos pólvora ao lado da chama
que ninguém consegue deter, parar, apagar
neste fogo de labaredas e lume
que em ambos crepita, vive e grita
não sentindo nós receio de assim estar
ao rubro e até de incendiar
pois, pode ser um risco, como todos sabem
a função mais básica de todas elas
o simples ato de respirar.


CÉU 


sábado, 14 de janeiro de 2017

QUASE

Lembras-te, será que ainda te recordas
que quase, quase, chegámos lá
ao ponto crudelíssimo e impiedoso
em que os ímpetos, desordeiros
despertam e desesperam as vontades
em que os desejos inclementes
deglutem tudo o que veem?
 
Foi por um quase, que não chegámos lá
e nem sequer chegámos a partir
pois os beijos afogaram as palavras
aves, corpos de arribação, soltos
que abriram asas e se emanciparam
em busca de prazeres mundanos
enquanto os olhares se leem.
 
Queres? Perguntaste-me, com voz terna.
És capaz de te lembrares disto?
Já estávamos nos tecidos da carne
e eu que tanto quis e esperei
tive forças para guardar o momento
o grandioso instante para depois
nas pupilas, que anteveem.

Nelas, tudo permanece igual para sempre.
Existirão impossíveis? Pensámos!
Questionamo-nos, prudentes, tementes
de uma resposta mal fadada
que não desejávamos, que chegasse.
Afirmei: não penses nisso, agora
pois tenho a certeza absoluta
que este nosso invulgar amor continuará
e que um dia havemos de ser eternos
mesmo de longe!


CÉU