sábado, 11 de janeiro de 2020

ESTILHAÇOS DE PRAZER

Sei que estás nu, coberto por um lençol de cetim
que adocicas e perfumas com o odor da tua pele
paralisando-me o pensamento, por instantes.
Esboças um sorriso descarado, apelativo e terno
e eu atrevo-me, despudorada, a avançar para ti
ávida, doce e compulsiva, mordiscando os lábios
secos, desidratados, mas húmidos de tanto desejo.

A um ou dois metros de distância de ti, fico tonta
e pareço que percorro um longuíssimo corredor
numa encenação involuntária e quase dramática
como na Antiga Grécia, no tempo de Aristóteles.
Não consigo afastar o meu olhar do teu corpo
e tu, deslavado e propositadamente, atrais-me
como o polo positivo com o negativo. Não se faz!

Desorientas-me toda, desativando-me o raciocínio
e a meia dúzia de passos da cama, puxas-me
caindo os dois num beijo ofegante e prolongado.
Arrepias-me com as tuas mãos tão frias, geladas
do copo com uma bebida, que nelas seguravas
e desnudas-me, rasgando-me a roupa todinha
que, desnorteado, atiras para os cantos do quarto.

O cenário ficou ainda mais quente e inconsciente
quando num ato ingénuo, adolescente e pueril
atiraste para o lume da lareira, a minha lingerie.
As chamas pintavam cores tórridas e devassas
e os corpos permitiam, entrando em ebulição
transpirados, alagados, roçando-se um no outro
alheios a tudo, vivendo só aquela fome desordeira.

Foram tantas e tão poucas, que ainda insaciáveis
apenas queríamos mais e mais, mais outra vez
até que os nossos corpos estilhaçassem de prazer
num clímax, em que os ais e gemidos agudos
davam ordens às cinzas gastas pelo nosso amor.
Nada nem ninguém mais existia à nossa volta
onde nos sentíamos peritos em jogos de sedução

tendo, depois de tudo isto, jurado um ao outro
que, um dia destes, talvez amanhã ou depois
voltaríamos a sentir e a viver aqueles momentos.


CÉU 

domingo, 1 de dezembro de 2019

NATURALMENTE

Quando pareces de mim desinteressado
e levas contigo o que de melhor tenho
sou do verso, a rima torta e morta
enquanto as minhas mãos se contorcem
em movimentos doloridos e aflitos
na acentuação de todos os meus gestos.

Sei de cor o som, o eco da tua ausência
que trata, vilmente, os meus ouvidos
com passos e gritos ensurdecedores
acompanhados pelas lâminas do vento
nos dias em agonia, interiorizados
na trituração natural do moinho da vida.

Esta, por certo, traz somente a demora
impregnada de momentos amargos
em que, desnorteada, me despe
e me entrega à madrugada, sem hora
temendo eu, que me retire o sabor
do teu amor, nos fios que ela bem tece. 

E aí, logo vem o medo, sem explicação
quando os nossos olhares se falam
mas não ouvem o grito do meu corpo
que é uivo lancinante e pungente
de loba, de fêmea desiludida e ferida
que com pés silenciosos e furtivos
procura novos caminhos, naturalmente.


CÉU

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

DEVORA-ME

Faço que esqueço o que sinto por ti          
roço-me nas artérias do coração                
e levo algo que debele a tua sede.     
Toma-o e entorna-o, sem pensares
sobre o meu corpo ávido, carente                 
tórrido, atrevido, esfaimado, lascivo.          

Beija e unta os meus lábios de cereja          
com o chantilly da tua doce boca                 
e caminha até mim, ousadamente. 
Sem hesitares, faz-me toda tua                
ficando eu como cheguei ao mundo                  
possui e goza este corpo que te grita. 

- Sou felina, sou mulher, devora-me!

Faz, amor, do teu corpo o meu lençol
põe-me no ponto com leviandade
sem juízo algum, limites e barreiras 
escancara-me, põe-me em clímax
como se nada mais nos interessasse
neste rodopiar e alcançar de prazeres.

E sem medo deste bulir de sensações
descobre e conquista o meu ego
acha os mistérios e particularidades
neste corpo em incrível desordem  
estreia e penetra bem a minha gruta
e vem-te dentro de mim, meu homem!


CÉU                   

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