sábado, 14 de janeiro de 2017

QUASE

Lembras-te, será que ainda te recordas
que quase, quase, chegámos lá
ao ponto crudelíssimo e impiedoso
em que os ímpetos, desordeiros
despertam e desesperam as vontades
em que os desejos inclementes
deglutem tudo o que veem?
 
Foi por um quase, que não chegámos lá
e nem sequer chegámos a partir
pois os beijos afogaram as palavras
aves, corpos de arribação, soltos
que abriram asas e se emanciparam
em busca de prazeres mundanos
enquanto os olhares se leem.
 
Queres? Perguntaste-me, com voz terna.
És capaz de te lembrares disto?
Já estávamos nos tecidos da carne
e eu que tanto quis e esperei
tive forças para guardar o momento
o grandioso instante para depois
nas pupilas, que anteveem.

Nelas, tudo permanece igual para sempre.
Existirão impossíveis? Pensámos!
Questionamo-nos, prudentes, tementes
de uma resposta mal fadada
que não desejávamos, que chegasse.
Afirmei: não penses nisso, agora
pois tenho a certeza absoluta
que este nosso invulgar amor continuará
e que um dia havemos de ser eternos
mesmo de longe!


CÉU


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

MENINO JESUS


Numa noite de inverno gélida, mas condescendente
tive um sonho fenomenal e transcendental
em que vi o Menino Jesus descendo do Paraíso
enquanto atirava beijinhos às estrelas e cometas.
Veio, de mansinho, pelos beirais do caminho
saltando, correndo, brincando com as ervinhas
fazendo que as puxava e até as arrancava
mas de maneira tão distinta, divina e tão diferente.

Vejam lá bem! Ele tinha-se escapado do firmamento
e como Grandioso, Supremo e Misericordioso
não se podia fazer passar por alguém
embora representasse a génese de toda a gente.
Como criança, achava o céu, sorumbático
onde lhe eram permitidas pequenas travessuras
mas, ao mesmo tempo, tinha de ser adulto
e essa de uma vez por ano ser pregado na cruz
simbolicamente, como todos nós sabemos
não lhe agradava nadinha, pois representava tortura.

Em contrapartida, Ele até tinha dois pais e uma mãe
um, de nome José e carpinteiro de profissão
outro, de nome Deus, fazedor de tudo
e Sua mãe, de nome Maria, jovem e sem mácula
que O deu à luz, com amor, miraculosamente.
Todavia, tudo isto era confuso para a Sua cabecita
que preferia ignorar, descontraidamente
embora soubesse da Sua maravilhosa e santa História. 

Então, o marotinho e quando Deus estava repousando
e todos os santos, ao redor Dele, também
foi à arca segredeira dos milagres
por mera brincadeira, como se dela necessitasse
e olhando à Sua volta e à socapa, tirou três.
Com um, fez com que ninguém soubesse da Sua fuga
com outro, fez-se para sempre, Homem-Menino
e com o terceiro, fez um Cristo, em forma de escultura.

Depois, sem pensar nem hesitar, foi visitar o astro rei
pedindo-lhe boleia, e aí veio Ele, contente
no primeiro raio de sol, que apareceu.
Maravilhado com os lugares por onde ia passando
observou um lugarejo, numa peneplanície
onde viu uma casinha branquinha, que era a minha.
Bateu à porta, mas o malandrito escondeu-se
para ver a minha reação, ou com medo de um sermão.

Lógico que não fiz tal, antes abri a porta de par em par
sorrimos um para o outro, embevecidos
ficando Ele para sempre lá a morar.
Senti-me tão feliz, pois já tinha com quem brincar
falar disto e daquilo, enfim, desabafar
pois Ele era o melhor de todos que eu conhecia!
Riso leal e celestial, mas um tanto irrequieto
pois quando nós brincávamos à apanhada
não sei como Ele conseguia ou que poder possuía
que sabia sempre onde eu estava. Era Jesus, eu sentia!

Era tão fraterno, que fazia que já não podia correr mais
só para eu sair vaidosa, feliz e vitoriosa
alegrando-me e premiando-me.
Vou revelar-vos! Adora chapinhar nas poças de água 
atirar florinhas coloridas às menininhas
diverte-se, enxotando os animais que vai encontrando
mas como criança, fica medrosa e até chorosa
se algum deles lhe ladra ou se assanha.
Sugeri-lhe que atirasse pedrinhas aos bicharocos
pois, seguramente, eles fugiriam a sete pés, como loucos.

Pegar na pedrinha Ele pegou, e até, docemente, a atirou
só que ela voou longe e não lhes acertou
transformando-se em boa comida.
Ora, a bicharada ficou sarapantada, mas deliciada
e correndo para Ele, saltaram em alvorada
gerando-se ali tamanha confusão, melhor, bendição
acompanhada de raios de luz, sem igual
que deixaram cair pétalas enluaradas e muito perfumadas.

Nas nossas conversinhas, Ele sabe e domina as matérias
de uma forma eloquente, simples, inteligente
mas, aqui entre nós, tenho de dizer-vos
que Ele, por vezes, faz queixas pequeninas do Pai
que não o deixa fazer disparates, extrapolar
mandando-O, em vez disso, amar o Seu semelhante
dar aconchego a todos, uniformemente
e se necessário, dar a vida pela Humanidade, sem recuar.

Ele mora na minha casinha branquinha, como já afirmei
e é a criança, o Deus que faltava na minha vida
que me acompanha para toda a parte
protegendo-me de toda a maldade, abençoando-me.
Com uma das Suas mãos, ampara-me
e com a outra, salvaguarda tudo o que existe
para que nada falhe, nem ninguém sofra no mundo.
Eu sei que há situações, que não entendemos
pois Ele é perdão, compaixão e salvação
mas, tenho a certeza, que Ele é o Menino Jesus do Amor.

Vocês não sabem, não imaginam, como nos damos bem
quer em casa, quer na rua, ou em outro lugar
porque Ele está sempre pronto a ajudar
a desculpar os erros dos outros, a redimir, a perdoar
sem nada pedir, sem rotular, nem afastar.
Ah, como me sinto bem, compreendida, idolatrada
e quando Lhe falo dos erros dos Homens
das maldades, das inúmeras atrocidades cometidas
Ele lamenta e tem pena de tudo isto
mas diz-me que a situação é temerária, mas temporária.

Quando Ele se deixa dormir, adoro deita-lo e embala-lo
contar-lhe historiazinhas lindas, de encantar
que sei que as ouve e as conhece de olhos fechados
pondo nelas, todavia, muita atenção.
Aí, sinto o meu instinto maternal a evidenciar-se
sabendo que Ele dorme dentro do meu peito
e quando acorda durante a noite, nem faz birrinha
antes se diverte a aumentar e a baralhar os meus sonhos.

Pretendo fazer-te um pedido, meu adorado Menino Jesus!
Posso dizer o que desejo, amado Senhor?
Quando eu morrer, pega-me ao colo, como eu Te fiz
e transporta-me para a Tua casa universal
onde todos, mas todos, cabem
retira as vestimentas do meu ser bastante cansado
deita-me na Tua caminha e embala-me
até que nasça aquele dia, que somente o Teu Pai sabe
e conduz-me à eternidade, numa nova terra
onde reinem a harmonia, o entendimento e a alegria
onde todos sejam irmãos, de facto!
ASSIM SEJA, SENHOR DEUS! PAI-NOSSO, AVÉM MARIA!



CÉU



NOTA: este poema foi inspirado no de Alberto Caeiro, "Poema do Menino Jesus", que desconhecia, e que fui encontrar no blogue "Começar de Novo", da minha estimada amiga, Emília Pinto, a quem muito agradeço!