sábado, 18 de dezembro de 2021

terça-feira, 16 de novembro de 2021

A RESPOSTA

Dei pela tua entrada no espaço onde improvisei a nossa noite, com passos maviosos e respiração prudente. O meu peito batia imenso, mas tentei amenizar a situação com um inevitável engolir em seco, e, inteligentemente, encostei-me à parede fria, no canto mais recôndito que encontrei.

E agora, o que sucederá? Como procederá ele? As minhas mãos, os meus dedos contorciam-se com delírios e sensações indescritíveis.

Apalpaste o escuro, e, facilmente, acabaste por me encontrar e me tomar. Não proferiste um monossílabo sequer, mas eu pressenti o teu bafo a percorrer-me o corpo de alto a baixo. Era tórrido, suave e terno, como o toque das tuas mãos em mim. O teu corpo e as suas convulsões diziam-me que caminhasse, que não tivesse receio, enquanto a tua respiração já bem perto, tentava deixar soltar a minha, para que me fizesse "gente" e me desse.

Dar um pequeno passo em frente, seria fácil, e haveria o encontro de dois corações, de dois corpos em alvoroço. Tive medo e não o fiz, embora o meu desejo me tivesse dado uns tantos safanões. Os meus sentidos pareciam bloqueados e os meus olhos, repletos de cio, sofriam por falta de luz.

Sem palavras, pegaste nas minhas mãos, muito frias e apavoradas, com as tuas, beijando-as e apreciando-as, como se de uma bela pintura se tratasse. Estava ali tudo o que sentias e o que querias de mim. Quando as sentiste menos frias,  guardaste-as numa das tuas, e com a outra tateaste todas as minhas linhas, sinais e veias que levavam o sangue aos sítios certos. Naquele momento, senti-me calma, finalmente, lembrando-me da doçura de todas as tuas carícias, sinceridade e maturidade, que tão bem conhecia.

Não ousei movimentar-me, nem retirar as minhas mãos de dentro das dele, pois também não saberia o que fazer com elas, nem com os pensamentos que se formavam em catadupa. Senti-me noutra esfera e comecei num quadro ansioso, com vertigens e náuseas. Vendo-me neste sofrimento, levou as minhas mãos à boca dele e beijou-as, delicadamente, percorrendo com elas o seu rosto, e eu, instintivamente, dei-lhes carta de alforria, soltei-as como se fossem aves, que tinham aprendido a voar naquele momento, e afaguei os seus lábios, os olhos, não desprezando as pestanas e as sobrancelhas, tal como os cabelos, que ficaram embaraçados nos meus dedos.

Um rosto bonito, maduro, macio, com algumas rugas, talvez de expressão, e no cabelo, embora ligeiramente comprido, fazia-se adivinhar uma agradável textura e volume. Enquanto lhe descobria o rosto, ele avançou um pouco mais até mim, e deslizou, subindo as mãos pelos meus antebraços, depois pelos braços, alcançando-me os ombros, depois o tórax, parando a sua exploração na cintura, cingindo-a.
Pensava eu que o meu coração era cordato, silencioso e bem comportado, mas qual quê? Que ruidoso! E não me obedecia. Cala-te, disse-lhe na minha imaginação, porque precisava de estar compenetrada naquele momento tão importante.

Foi, então, que me puxaste para ti, compulsivamente, abandonando-te ao meu olhar, mantendo-me, no entanto, presa pela cintura. Senti-te o corpo inteiro e comecei o percurso com as minhas ávidas mãos, que souberam, exatamente, o que fazer. Percorri-te o rosto, em seguida o tórax, onde encontrei alguns pelos, claros e poucos, felizmente, que excitavam a tua camisa já quase toda aberta. Fiquei tão envergonhada e tão corada, mas acho que até disso te apercebeste.

Todo o meu corpo estava em alerta, e sentia os estímulos vindos de ambos os lados. Ele tremia, cerrando os olhos, enquanto os arrepios se notavam, perfeitamente. Tive medo do calor do desejo e estremeci, também. O corpo dele era forte e másculo, bem mais alto que eu, possante e possuidor. Pensei que deixaria de pensar naquele momento, tal era o impacto dele junto de mim. Sem querer, deixei escapar um tímido gemido, quando ele desapertou alguns botões do meu vestido vermelho e me acariciou os seios, gesto que me pareceu de seda, todo adoração, todo procura. Com os seus lábios tocou os meus, quentes e desejosos, delineando todos os cantos e recantos deles e num semicerrar involuntário dos olhos, o corpo afogueou-se. Fitou-me e apanhou-me a boca com a sua num beijo, que deixei aprofundar até fundirmos respirações, ímpetos e suores.

Depois, finalmente, falou e perguntou-me se eu o queria reconhecer. A voz inconfundível e meiga dele perturbou e calou na garganta o meu sim. O meu silêncio não fez mal, pois o meu corpo deu-lhe, logo de seguida, a resposta.


CÉU  

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

A MEIO CAMINHO


A pouco e pouco, vou-me aproximando de ti
devagar e de forma quase impercetível
espreitando pelo canto do olho
para ter certeza de que te apercebes
de todos os movimentos e aproximações
analisando com inteira agitação a tua reação.

O meu pobre coração bate aceleradamente
em ritmo inconstante, leviano e profano
que me provoca até dificuldade
em fazer chegar aos pulmões tão arfantes
o ar abençoado e oxigenado que respiro
perfumado por um odor que me chega de ti.

E é esta fragância que do teu corpo se solta
leve, imponente, desgarrada e tão fresca
que comanda os meus sentidos
deixando-me transtornada e bloqueada 
num estado hipnótico e de autêntico transe 
perdendo a noção de quem sou e o que faço.

Volto a espreitar pelo canto do olho, matreira
e sinto-me invadida por uma angústia vil
continuando nós à mesma distância
cada um no seu continente, no seu espaço
embora se mantenha a falsa sensação
de que me vou aproximando de ti aos poucos.

Assim, de forma indireta, hábil e muito penosa
mantemo-nos muito afastados um do outro
e todos os meus músculos contraídos 
se queixam já do tremendo e anormal esforço 
e é num ato impregnado de desespero
que te proponho com sinceridade e carinho
que nos encontremos, amado, a meio caminho.


CÉU

segunda-feira, 21 de junho de 2021

segunda-feira, 24 de maio de 2021

BANCO DOS RÉUS

Disseste-me, hoje, que me ias despir de preconceitos
lentamente, beijando a minha boca, pescoço e seios
e não, não fazias a mínima intenção de parar
pois estavas tomando para ti o meu saboroso gosto
apreciando o cheiro da minha pele sensível e apetecível.

E percorrias o meu corpo com as tuas esfaimadas mãos 
nuns momentos completamente louco, firme e hirto 
noutros, amorosamente e deliciosamente quase morto.

E sentias as minhas coxas a chamarem-te impunemente
os meus roucos gemidos e todos os meus sentidos
te impeliam para o meu néctar, que querias tanto provar.

Provaste-o bem, tal como o meu corpo com odor de jasmim
porque o meu corpo foi mais do que estavas a imaginar
foi mais do que uma sentença a que entregaste sem vacilar.

Ficaste com a certeza de não querer que te parasse de julgar
e pude fazê-lo com sabedoria enquanto fizemos amor 
os dois encaixados, em êxtase, no banco dos réus.
Que a tua pena seja sempre dura, pesada e prisioneira 
tendo só como liberdade o meu corpo e este doce mel meu.


CÉU

sábado, 24 de abril de 2021

SONHO-TE


Sonho-te tantas vezes, mais do que as que devia

e nesses sonhos todos, procuro-te e quero-te

e exijo muitas respostas também.

Já me não queres e o nosso amor terminou

pois o teu coração está bem ocupado

sem mais espaço para mim. Será isso possível

Será?


Em todos esses sonhos meus, eu não te tenho

excetuando no de ontem, não sei o motivo

e em que te abracei, demoradamente.

Fechei os meus olhos, e senti o melhor de ti

e não te larguei, alienada, como era de prever

enquanto o teu corpo se deixava afagar e amar.

Porquê?


Perguntei-te por ela e sem reservas desabafaste

dando-me a resposta que sempre quis ouvir

e que há anos a esperava e adivinhava.

Fizeste questão de me lembrar, como vingança

que também eu tinha há tempos um "amor"

esse que tu julgas que me possui de corpo e alma.

Como te enganas!


Bem sabes que os meus pensamentos e coração

sempre foram teus, sempre te pertenceram

e a ilusão de que te esqueci é totalmente falsa.

Continua a agonia de saber que habitas em mim

que ainda aqui estás, deambulando silencioso

tendo eu consciência de que é errado gostar de ti.

Ainda.


Nunca quis voltar atrás e mudar o meu passado

mas se pudesse, se fosse possível, se...

nunca te teria conhecido. Como sou mentirosa!

Foste e és o amor da minha vida, tu sabes

e sei também que nunca mais te irei ver

embora não deseje reconhecer esta vil verdade.

Não!


Uma felicidade que durou tão pouquinho tempo

e a dor que perdura e que não quer sair

do meu peito gasto, que tu tão bem conheces.

Se eu pudesse não existias ainda na minha vida

passassem os anos que passassem, doridos

mas, apesar de tudo, continuam a fazer sentido.

Juro!



CÉU

domingo, 21 de março de 2021

TODO O POETA


COMEMORA-SE, HOJE, DIA 21 DE MARÇO, O DIA MUNDIAL DA POESIA. EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO.


Todo o poeta é toda a vida um infeliz sofredor

porque muitas vezes não soube ser amado

e por mais que ele se faça desentendido 

e ainda que tenha um universo de palavras

é pura fantasia, fascinação, ah, pobre, coitado!


Tem, pois, um ou vários amores para escrever

todavia se o tem, jamais o possui para amar

como se um demónio por perto andasse 

uma divindade vil e cruel a ele se enlaçasse

vingando-se o poeta no papel, lápis e na arte.


Todo o poeta é um fingidor, como todos dizem

e isso escreveu um fingidor, de nome Pessoa

porque é capaz de convencer quem o lê

e os seus versos só ao puro amor se dirigem 

não sabendo o poeta de onde ele, afinal, vem.


Ele é apenas um, só um, e estradas não tem

e escrevendo tenta encontrar algum rumo

mas mal sabe onde lhe cabem as mãos

vivendo por isso nas linhas e entrelinhas

refletindo o que ele passou, e sofreu e amou.


Todo o poeta delira e adora padecer e sofrer

saboreando as dores que tanto o magoam

todavia, delas se diz assaz necessitado

e flagelado, busca-as, invocando-as, louco

beijando-as e querendo-as sempre a seu lado.


Todo o poeta é assim, e sempre assim será

escondendo no amor os seus tormentos 

mentindo-lhe a vida, tão desgraçadamente

chamando felicidade à dor que ele fabrica

na loucura consciente e também inconsciente.


CÉU

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

PANDEMIA

 

APÓS TER FEITO PESQUISA DIVERSA, ESCREVI ESTE TEXTO, BASEADO EM IDEIAS DO PENSAMENTO BUDISTA, VISTO SER AQUELE QUE MAIS CORRESPONDE ÀQUILO QUE PENSO SOBRE A PANDEMIA.


Neste tempo de Pandemia do Coronavírus, em que foi dito e redito às pessoas para ficarem em casa para não espalharem ainda mais o vírus, muitas acham que falta tempo e outros que sobra. Reflitam! O tempo é o mesmo e nós somos o tempo e não existe uma coisa separada de nós chamada tempo. Quando as pessoas dizem:"- Ah! Não tenho tempo para fazer nada." Não é verdade. Nós é que estamos sobrecarregados de tarefas. Atualmente, temos muito mais acesso à informação e queremos estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Não conseguimos, pois não sabemos priorizar. Quem está a trabalhar em casa, teletrabalho, está a sentir mais dificuldade em organizar-se, porque para além das tarefas domésticas, há a solicitação das crianças e dos amigos, o que pode retirar um pouco a sua concentração.


Isso de faço o que quero, quando quero e com quem quero, sempre foi e será uma falsa sensação de liberdade, pois todos nós temos direitos e deveres. Seguir a quarentena deve ser visto como uma atitude para o seu próprio bem e o de milhares de pessoas, evitando que o vírus se propague. Então, se o momento é para ficar em casa, aproveite-o da forma que mais lhe agradar.


As pessoas estão a morrer diariamente e nós sabemos disso. Então, temos de nos preparar, porque amanhã podemos ser nós e asfixiados. É angustiante. Há um susto tremendo, há uma ansiedade, há medo (não é errado, não é feio sentir medo. É natural da nossa espécie), mas não chega a paranoia. Segundo os dicionários, paranoia é: " perturbação mental que se caracteriza pela tendência para a interpretação errónea da realidade em consequência da suscetibilidade aguda, do orgulho excessivo e/ou da desconfiança extrema do indivíduo que pode chegar até ao delírio persecutório" (esta definição vai direitinha para o professor e médico Jorge Torgal).


Buda já dizia há 2.600 anos que não havia nada seguro neste mundo. A vida sempre foi assim e é uma falsa sensação de que temos o controle de tudo. Não temos. Hoje temos emprego, amanhã poderemos perdê-lo, hoje somos saudáveis, amanhã poderemos ficar doentes. A nossa vida está sempre por um fio.


A Pandemia, um dia irá terminar, mas por enquanto estamos passando momentos de turbulência. E como passar por tudo isto de uma maneira melhor? Fazendo a nossa parte, cuidando-nos em todos os aspetos. A gente tem de perder a mania de querer achar sempre um culpado para dizer: "olha, se piorar, a culpa é dele(a). Agora, isso não pode existir, agora vamos inspirar coisas boas para nós e para o nosso coração. Preocupemo-nos em ajudar o outro, pois geralmente quem menos tem, é quem mais partilha. Não interessa o que pensamos ou quem somos, pois, agora, nós temos apenas uma necessidade: a vida. E a vida é maior que tudo isso. Temos de superar este tempo juntos e unindo forças.


Depois de tudo aquilo que estamos a passar e passaremos ainda, talvez haja uma transformação da sociedade depois da pandemia. Gostávamos todos que isso acontecesse, sem dúvida. Acho preocupante nos esquecermos de tudo aquilo que passámos. Será que depois da pandemia findar, continuaremos a ser egoístas, fechados em nós mesmos, cada um com o seu telemóvel na rua, batendo com a cabeça um no outro? Sinceramente, espero que estes tempos despertem a consciência humana e percebamos que somos um só corpo e uma só vida com tudo o que existe.


Com mais consciência, o ar pode melhorar, os rios, também, a natureza em geral e as nossas relações uns com os outros, igualmente. Que essa experiência/Pandemia nos transforme para melhor. Gostava tanto! Nós vamos aprender com tudo o que temos passado ou iremos esquecer tudo daqui a alguns anos? Seria bom que ficasse em nós a lembrança deste terrível acontecimento que quase destruiu o mundo, pois engrandeceríamos como seres humanos. Estarei eu a ser ingénua e utópica?


CÉU

domingo, 3 de janeiro de 2021

GOZO


Deito-me lenta e febrilmente sobre a cama

no espaço em chamas que nos chama

onde dia a dia me debruço sobre versos

enquanto cá não chegam, irrequietos

em fortes anseios que me cortam a razão.


Continuando a amar-te, destemidamente

deixo-me cobrir como se pomba fora

infestando-me com o melhor que possuis

e que me ofereces tão enamoradamente

de olhos assombrados como se moura fora.


Cometo, sem temer, o mais doce adultério

quando, excitada, sorvo os teus lábios

denunciando-se os abalos no meu corpo

e amolgando com luxúria o meu flanco

vais descobrindo todos os meus mistérios.


Perdes-te, ressabiado, nas minhas carnes

saboreias em mim o que a poesia quer 

beijas-me, doidivanas, a sugar por gosto

até que molhada, já não aguente mais

podendo fazeres-me unicamente tua 

quando eu encontrar, finalmente, o gozo.


CÉU

O MUNDO PASSA POR AQUI