sexta-feira, 23 de novembro de 2018

GOSTAVA TANTO

Gostava tanto que tu tentasses e ousasses
descobrir o odor exato do meu corpo
com a humidade da tua boca
que enleasses e também entrelaçasses
as tuas mãos esguias nas minhas
me olhasses e penetrasses com os olhos 
sorrisses e risses com alegria vadia
e me pusesses nua ao som da tua respiração.

Que prendesses e gargarejasses as palavras
tropeçasses e ficasses no meu coração
que me mimasses os cabelos
roçando-te, em cascata, pela minha nuca
e parasses para dizer ao meu ouvido
palavrões de fazer corar a mais atrevida
enquanto a tua língua, destemida
procuraria na minha boca o céu dos sentidos. 

Gostava tanto que calasses os meus suspiros
delineando-me a boca de lábios carmim
que quisesses provar e lambuzar
consentindo-te tudo, mas tudo, confesso
sentindo-te como o mais impetuoso amante
furacão avançando contra o meu corpo
que já estava alerta e em agitação
beijando-me os seios e sugando-me o pescoço.

Que acariciasses com doçura as minhas coxas
tentando aperceber-te da sua textura
com fino toque e lasciva doçura
alternando os teus gestos e movimentos
como se estivesses a achar e a abrir
o miolo de uma flor, comprimida e excitada
afastando-lhe as pétalas irresistíveis
tocando-as com os teus dedos famintos
estimulando-as e humidificando-as
com a tua língua desordeira e fascinante
em círculos tais, que nascessem ais
para desabrocharem no orgasmo de um amor.

Que não vás arranjar pretextos para dizer não
pois estás mortinho para pôr em prática
o que te estou quase a implorar
sem qualquer vergonha, nem acanhamento
que possa perturbar o teu desempenho
como lobo, voraz, na floresta fatal
tendo de mim e como graciosa recompensa
uma dança árabe, logo, infalivelmente, sensual.


CÉU

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

CONTRADIÇÃO

Por favor, não me tragas mais penas e lágrimas!
As minhas são um mar de abundância e dor.
É inexplicável e cruel, amar-te tanto
e não te querer.
Sou, decerto, louca e contraditória
e já não tenho discernimento, nem cura.

O solo que piso é áspero, íngreme e desnivelado
(talvez como eu)
e o sol beija-me, sem pudor, o corpo nu
que entrego às palavras
indecifráveis, mudas, potentíssimas 
senhoras do seu destino
e por isso nunca sei onde vão parar e ficar.

Ah, amor! Se me cobrisses o corpo com beijos
e me abraçasses muito a alma
tal como quando entras nos meus sonhos!
Mas, nem tentes!
Mandar-te-ia embora, sem hesitar
(não me entendo)
e ficaria ali padecendo, de coração exposto.

As trevas e o sofrimento entraram-me na carne
e quando me firo, o sangue é negro
muito negro, quase da cor dos meus olhos.
Amar-te e não te querer
é tortura a que me dou, de propósito
(que estranho!)
porque gosto do sabor a fel
da agonia forte
do aperto no peito
da pungente angústia
e deste dilacerante desassossego na alma.

É, desta forma, que te quero, não te querendo
amando-te à distância, crudelíssima
imaginando-te no universo
bem longe de mim
para que tenha mais saudades de ti
purificando-me, pela vontade do desejo.

As palavras fogem-me, soltam-se, irreverentes
e de mim, acho, já se livraram todas
num ímpeto feroz, não sei.
Já não te consigo dizer o que sinto
que queria, apenas, não sentir
(não sentir, não me atormentar, não sofrer)
e apenas querer-te como te quero.


CÉU

EU, EM JUNHO DESTE ANO!

EU, EM JUNHO DESTE ANO!

O MUNDO PASSA POR AQUI!