segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

DELÍRIO

COMEMORA-SE, HOJE, DIA 14 DE FEVEREIRO, O DIA DOS NAMORADOS. EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO. 


Sem eu saber lá muito bem de onde vinha

aquele cálido soprar, aquele bafejar

nos meus cabelos, no rosto e no corpo

que o recebia, o aquecia e crescia

ao contacto intenso e galopante do teu

num estado eufórico, louco.


Um encontro doce e de indescritível prazer 

tonificado, já em pedra, solidificado

viril, destemido, de rompante, abusivo

desordeiro, mas afável e seduzido

pela agitação e excitação do meu corpo

contra o teu, já quase fogo.

 
E queres e apoderas-te logo, logo de mim

tomando, perseguindo, conseguindo

o achar, o realizar do ponto de encontro

sonhado, desesperado, prometido

e o beijo com que me enlaças a boca

sabe-me a tão, a tão pouco!


As mãos ávidas, que queimam as roupas

abrem veredas, matagais, estrelas

e os olhos olham-se, falam, chocam-se

e ensinas-me o caminho, guias-me

com força neste impulso forte, convexo

estendendo a passadeira vermelha

escancarando todas as portas ao sexo

já a babar-se de tão frouxo!


Conheço, sei de cor, os teus íntimos sinais

os gemidos, o arfar, os gritos e os ais

a voz, a tua voz, desejando e exigindo

mais, sempre mais e muito mais

e a tua língua dominadora e guiadora

levando-me, pouco a pouco.


Finos e fortes perfumes, odores e sabores

pénis em ereção, ansioso, incontido

meu amor, vem, minha língua dançarina

ao teu render, quase vindo

em avalanches, pérolas e brilhantes

espessos, de muco, de ouro.


Manobras-me, manuseias-me, dobras-me

como flor breve, à mercê, leve

nas tuas mãos, desfalecendo, morrendo

e segues o vento tórrido

num voo despótico, sensual, erótico

e quando paras, és beijo rouco.


E eu em delírio, febre subindo, trepando

e tu em mim, feliz, naufragando

e tu em mim investindo, alagando-me

e eu usufruindo e gostando

até que as palavras, os uivos, os gritos

aconteçam da morte pequena.


E depois e logo de seguida, e sem parar

as coordenadas dos sentidos

contorcem corpo e alma em espasmos

em estrofes brancas e bordadas

que inventei e escrevi com o teu sémen

escorrendo devagar, aliviado

pela vegetação e botão da pradaria

que estremece e se agita e enlouquece

de prazer fundo, extenso, profundo

e somos só dois, nós, tu e eu

jazendo ali, anarquizados e sagrados

fazendo o amor deste e de outros mundos.



CÉU

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