domingo, 1 de dezembro de 2019

NATURALMENTE

Quando pareces de mim desinteressado
e levas contigo o que de melhor tenho
sou do verso, a rima torta e morta
enquanto as minhas mãos se contorcem
em movimentos doloridos e aflitos
na acentuação de todos os meus gestos.

Sei de cor o som, o eco da tua ausência
que trata, vilmente, os meus ouvidos
com passos e gritos ensurdecedores
acompanhados pelas lâminas do vento
nos dias em agonia, interiorizados
na trituração natural do moinho da vida.

Esta, por certo, traz somente a demora
impregnada de momentos amargos
em que, desnorteada, me despe
e me entrega à madrugada, sem hora
temendo eu, que me retire o sabor
do teu amor, nos fios que ela bem tece. 

E aí, logo vem o medo, sem explicação
quando os nossos olhares se falam
mas não ouvem o grito do meu corpo
que é uivo lancinante e pungente
de loba, de fêmea desiludida e ferida
que com pés silenciosos e furtivos
procura novos caminhos, naturalmente.


CÉU

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

DEVORA-ME

Faço que esqueço o que sinto por ti          
roço-me nas artérias do coração                
e levo algo que debele a tua sede.     
Toma-o e entorna-o, sem pensares
sobre o meu corpo ávido, carente                 
tórrido, atrevido, esfaimado, lascivo.          

Beija e unta os meus lábios de cereja          
com o chantilly da tua doce boca                 
e caminha até mim, ousadamente. 
Sem hesitares, faz-me toda tua                
ficando eu como cheguei ao mundo                  
possui e goza este corpo que te grita. 

- Sou felina, sou mulher, devora-me!

Faz, amor, do teu corpo o meu lençol
põe-me no ponto com leviandade
sem juízo algum, limites e barreiras 
escancara-me, põe-me em clímax
como se nada mais nos interessasse
neste rodopiar e alcançar de prazeres.

E sem medo deste bulir de sensações
descobre e conquista o meu ego
acha os mistérios e particularidades
neste corpo em incrível desordem  
estreia e penetra bem a minha gruta
e vem-te dentro de mim, meu homem!


CÉU                   

domingo, 6 de outubro de 2019

SABES-ME

Sabes-me sempre a tão pouco, meu amor
quando em mim atracas, com volúpia
de boca esfaimada, explorando a minha.
O teu cabelo cheira-me tanto a luar
que ata com nós firmes a nossa paixão
a que construímos há tanto, tanto tempo!

Deixo que as lágrimas teimosas e mornas

beijem o meu rosto e os cantos da boca
que já só sabe à tua, invariavelmente.
Depois, misturo-a com a saliva, ardente
numa alquimia pagã, nunca permitida
tendo o teu corpo, louco, pressa orgástica.

Abraças-me, então, muito melhor que o ar
e eu enleada em ti, sou, somente, ave
a proteger-se do furor das tuas palavras.
Cantas-me, doce, a vida consagrada
quando me fazes tua, incansavelmente
no delírio e no mutismo, ao mesmo tempo.

Não quero, não quero que me saibas de cor
quero, isso sim, surpreender-te sempre
e que te refaças para me amares de novo.
E de ave mansa, indefesa e à mercê
torno-me leoa, nos buliçosos prados de ti
sendo, simultaneamente, presa e predadora.

No meu corpo deixas muitos sinais urgentes 
que receio não ser capaz de satisfazer
entrando eu logo em pânico, desesperada.
Assim, e mesmo não conseguindo abrandar
este desejo, esta fome, que de ti possuo
sei que o pouco que me dás, é tanto, tanto!


CÉU

sábado, 25 de maio de 2019

DESASSOSSEGO

Quando me dizes que estás para chegar
a inquietação e o desassossego
tornam-se detentores do meu ventre
que sente mariposas incomodando
esperando que o caçador lance a rede
para que, de forma hábil, deixe sair o ar. 

É então que os teus sonhos bons e alvos
ascendem as paredes do quarto
e tudo fica transparente e clarividente
e até a janela lança sons especiais
que somente nós ouvimos e sentimos
enquanto as cortinas sussurram saudade.

Para te receber, decoro o chão com flores
que espalho, de jeito estratégico
para que o odor das pétalas te extasiem
e façam abrir os teus lábios ávidos
ao ambiente por mim pensado e criado
misturando eu jasmins com vontades de ti.

A colcha da cama, já toda desapacientada
abre os braços ao teu corpo todo
para que pegue fogo aos teus sentidos
que fazem com que o meu vestido
vermelho e sofisticado, se solte da pele
como abelha, que procura mel na tua boca.

E, finalmente, quando a porta se escancara
deixas a ausência, de jeito alegre
pendurada no puxador, do lado de fora
nela escrevendo: não incomodar!
Tu entras, de afogueada, na minha fome
como pão, que não trago há séculos
fermentado no tempo e instante certo
num prazer durável, voraz e incontrolável
investindo e reinvestindo, em ereção
pela noite dentro, sem uma palavra alforriar.


CÉU

segunda-feira, 22 de abril de 2019

PEDIDOS

Em cada poro meu, descobre o gosto bom
do meu corpo abrasador, subtil, em flor
com odor de jasmim, canela e cetim
na suavidade com que deslizam
os teus dedos finos pelas minhas formas
que percorres, onde habitas e dormes
extenuado e aliviado de devassidão
por estares toda a noite dentro de mim
explorando-me, pormenorizadamente
alimento integral, sustento que te ofereço.

Percorres a minha pele macia e moreninha
mergulhas no bruxedo dos meus olhos
incrivelmente alegre e apaixonado
tanto, que não sei definir-te.
A tua doce língua dorme na minha boca
devorando os sabores do meu palato
e assim aconchegado todo a mim
adormeces, açucarado, nos meus seios
altares, irrevogavelmente, profanos 
onde se expulsam crendices e preconceitos.

Entregas-te à minha anatomia com ardência
acariciando as elevações do meu relevo
no meu corpo libertino e despudorado
qual planta, que se agita ao vento
que, propositadamente, sibila e acaricia
o firmamento, que para ti represento
ou ternura imensa, que te absorve
pernoitando em mim, viciado de prazer
que te dou ao amares-me cada dia
como se fosse o derradeiro das nossas vidas.


CÉU

quinta-feira, 21 de março de 2019

POETISA

COMEMORA-SE, HOJE, DIA 21 DE MARÇO, O DIA MUNDIAL DA POESIA. EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO!


Se um dia, se hoje, vires uma mulher
uma mulher a chorar, arduamente
e se o encantador rosto dela
for um poema dotado e esculpido
deita-te a seu lado, cautelosamente
repousa o teu corpo sobre o dela
e alivia e mitiga as suas dores
pois a dor desaparece e naufraga
quando oferecemos minúsculos nadas.

Se a contemplares, essa fêmea sorrirá
e tu sorrirás, também, sem hesitar
acariciando-a, perdidamente
no desatino e anseio da tua boca
na tagarelice e na rigidez do teu sexo
em afagos ofegantes e constantes
como poema, somente, para ti 
e que dele farás o que entenderes
na força das tuas impetuosidades natas.

Caso não vejas mulher, poetisa alguma
nem crianças chilreando por perto
senta-te na ausência delas
e espera, pois a noite é cúmplice
das vontades, que se insinuam
e as poetisas calam, pacientemente
mesmo se os teus ávidos braços
forem incitados pelo meu corpo nu
no ato em que me dou e me abandono.

Por ti estarei, obscenamente, possuída
e tu, homem idolatrado, também
mas se eu nunca te envolvi
tem cuidado, pois dos meus seios
brotam poemas quentes e delirantes
que na tua alcova de devaneios
contigo farão amor, inevitavelmente
logo e sempre que entumeceres
no frenesim da cópula e dos orgasmos.

Na ebulição dos beijos e dos abraços
despertaremos e poremos o isco
enquanto os poemas serão algemas
de cetim vermelho, frouxo e submisso.


CÉU

sábado, 26 de janeiro de 2019

VEM!

Hoje acordei com ganas de estares em mim
e preparei-me bem para a noite, a nossa.
Limpei a casa, arrumei o desalinho 
engendrei um ninho de cobertores de pelo
rodeados de velas aromatizadas
o leve e aconchegante cheiro de incenso
como manda a etiqueta, logo à entrada
e observei a incidência da luz sobre o quarto.

Banhei-me, longamente, em óleos cheirosos
e pétalas das mais diversas procedências
deixei correr, devagar, a água quente
sobre os meus seios bem feitinhos
depilei-me com toda a atenção e precisão
sequei todo o corpo, cuidadosamente
massajei, sedutoramente, a minha pele
com leites orientais, calêndula e muito mais.

Coloquei com rigor a minha sensual lingerie
vestindo-me, de seguida, da cor da lua
com todos os adereços, que aprecias
e estou, deslumbrante, esperando por ti.
Pus as nossas bebidas no congelador
tal como sempre sugeres e pedes
pus de alerta os morangos e o chantilly
e cobri-me de cheiro de alfazema e alecrim.

Ah, mal posso esperar pelo nosso saborear
mas mais logo, pela calada da noite
espero, confiante, que sempre encontres
o caminho da nossa casa, meu amor
e por muitos, que percorras sem mim
nunca te percas, rogo aos deuses
que eu esperar-te-ei no fim do nosso
e ai ficaremos, certamente, um no outro
até ao acordar do dia. Ansiosamente, vem!


CÉU 

O MUNDO PASSA POR AQUI