domingo, 12 de abril de 2015

ELE HÁ COISAS...

A minha pele acetinada, morena, desenfreada, crua e nua
flutua, banha-se à-vontade, e não se esquiva na tua
enquanto me contornas os lábios com a ponta da língua
mordiscando-me as orelhas, de todo, perturbando-me
lambendo-me as virilhas e a zona genital, obcecadamente
viajando nos seios sem regras, entrando em contramão
numa erupção bem mais estrondosa que a do Vesúvio
quando entra em atividade sem fornecer qualquer explicação.

Como não existem fronteiras, barreiras, nessa tua viagem
então o que me espera é que me devores, por inteira
sem pontinha de pudor, sem culpa, um horror
fazendo de mim uma iguaria e alucinogénia fantasia 
que te enche as medidas, que te faz crescer água na boca
enquanto eu em estado de sítio, fico sem saber o que fazer
balbuciando, gemendo e gritando, de tanto prazer
que me transporta ao bordel mais frequentado, podem crer.

Como se isto não bastasse, calas a minha boca com a tua
afirmando, convencidíssimo: eu sei do que tu gostas.
Com estas tuas proferições, fico possessa, louca e acesa
defrontando-te e subestimando-te, ficando toda do avesso
fazendo pose progressiva para as lentes dos teus olhos
que sofridos, tristes, sedentos, como pássaro ferido
passam a ver-me, não em três dimensões, estás perdido
mas em dó sustenido maior, sem bemóis, meu amor querido!

Mesmo não tendo tu a visão maravilhosa, idílica e libidinosa
eu tenho a absoluta certezinha, que tu mesmo de longe
saboreias-me a carne, pele, alma e coração, o corpo, o rosto
e não deixas nem um ossinho, que me conforte e suporte
e mesmo assim, mergulhas, afocinhas nas minhas coxas
encontrando aí uma gruta bem tratada, limpa e nunca usada
que derrama águas cristalinas, puras, mágicas, divinas 
que te assusta, te nega, e que de todo, não te deixa beber nela.

É nesse instante que a cama virtual se incendeia, em alvoroço
sem obedecer a nada nem a ninguém, a "revolucionária"
atitude que contrasta com o meu ar calmo de "reacionária"
que me provoca uma enormíssima satisfação, animação e gozo
provocando em ti um desespero destrambelhado e forte
mas como sabes, quem com ferros mata, com ferros morre.
E quando tudo parecia que estava a apaziguar e a terminar
começámos a fazer amor de novo, como se fôssemos lume e fogo.


CÉU

quinta-feira, 2 de abril de 2015

IMPERATIVA

Faz do meu corpo uma casa assombrada, temível, abandonada
onde nunca ninguém entrou, nem vivalma, e nem o sol lá chegou
com portas e janelas, gemendo, sofrendo, rangendo, empenadas
de tanta espera de ti, de prantos pungentes e urgentes, noite e dia
em angústias sufocadas, abrasivas, bolorentas e já desesperadas
no inferno do tempo mudo e fechado, e que parece ter parado.

Irrompe na entrada principal, cego, sem pensar, sem avisar
esmaga-te de encontro às paredes sombrias, pálidas e frias
arranhando-as, desgrenhando-as, ferindo-as e deventrando-as
fazendo-as sofrer, aterrorizar, gritar, implorar e estremecer
assustadas, em pânico, com tamanho impulso e atuação brutal
que, por muito estranho que te pareça, estão de pedra e cal.

Abre ainda mais, escancara, de lés a lés, as janelas já desabituadas
meus lábios, minha boca ávida, calada, mórbida, desidratada
esperando água, soro do teu beijo, meu exclusivo alívio e socorro
em overdoses, espasmos, sobressaltos, em convulsões iminentes
que o corpo quase finado, recebe, pensa, recompensa e agradece
já que a mente, coitada, esqueceu a função de estar consciente.

Procura a sala mais alta e alva, mais recatada e mais ornamentada
olha-a, fita-a bem, observa-a com exaltação, elevação e tentação
acaricia as colinas, e em seguida, retira as cortinas já desbotadas 
meus seios esquecidos, sem viço, coitadinhos, e em reboliço
na ânsia de um afago, de um aconchego, de um roçar de mão
que os possam devolver à luz, ao saltitar do prazer, à excitação.

Arromba-os, sem dó nem piedade, bruscamente, de uma assentada
humidifica, enrijece as auréolas e afina os mamilos poeirentos
tal como fazem os experientes músicos, antes de alguma atuação
aos instrumentos, desamparados, imobilizados, há tempos e tempos
obtendo, dessa forma, sinfonias melodiosas, em ritmo estonteante
sugando-os, saboreando-os com arrebatamento, mas ainda sedentos.

Descobre o quarto, o nosso, com história, que sobejamente conheces
infiltra-te nele como espião atrevido, prudente, sabido, inteligente
observando, procurando com ansiedade, a luxúria das luxúrias 
meu ventre, colchão com medidas e estruturas ergonómicas
para os movimentos desferidos, os enleios e vaivéns destemidos
que de ti brotam, jorram, em estocadas consecutivas e incisivas.

Invade as minhas ruas, becos, travessas, ruelas, avenidas, sem vida
meu corpo inteiro, só teu, escancarado, à mercê, desnorteado
roçando-te, lambuzando-te, incendiando-te nessa divinal erupção
que vendo-te eu assim, tão desbravado, e inteiramente em mim
inalei e saboreei, pois sabia que querias, as tuas íntimas fragâncias
e aí estremeci, anulei-me, endoideci, absorvi-te e diluí-me em ti.

As paredes são, agora e para sempre, as nossas únicas testemunhas
neste espaço paradisíaco, sem meios termos, sem mais ou menos
e eu, comportada, lânguida, aprumada, carente, mas arrebatada
ordenei que fosses bruto, reles, grotesco, primitivo, mas evoluído
suplicando-te que entrasses e penetrasses as minhas frestas
que pariram um arco-íris em ti, e a mim, puseram-me, logo, em festa.

Hoje, fomos, e tudo demos um ao outro, sem analisar, sem hesitar
desejando que a entrega, muitas vezes, aconteça e prevaleça
com corações assumidos, fiéis, sem trocas nem contrapartidas
sem estigmas, sem o apontar de dedos, sem rótulos obsoletos
com leve perfume a pecado e a rosas vermelhas no meu regaço
porque para fazermos amor, assim, a vida inteira já não chega.



CÉU

O MUNDO PASSA POR AQUI