domingo, 7 de fevereiro de 2016

PERGUNTA

Usa-me, abusa, besunta-me, lambuza-me e suga-me
como se eu fosse uma fruta muito sumarenta
fresca, melosa, paradisíaca, pegajosa e saborosa
elixir único e desconhecido da longevidade
e juro-te que farei de tudo, mas mesmo de tudo
para te entumecer e enlouquecer de tanto, tanto prazer.

Chega-te mais para perto, mais próximo de mim, assim
esbanja, desanca sem hesitares a tua boca na minha
na horizontal, perpendicular, vertical, tanto faz
estrangula a sede dos teus lábios nos meus
faz gargarejos lentos com os meus beijos
morde-me a ponta da língua, inteira, com avidez
entrelaça-te nela, prende-a e trava-a, de vez
para esmiuçares cada papila gustativa e sensitiva
como o teu corpo, a tua libido, suscitam e incitam
desacelerando e aliviando todos os teus caprichos e vícios.

Suplico-te que com voz rouca, contaminada e desidratada
me sussurres, me murmures palavrões aos ouvidos
até que eu fique de rastos, sem noção e tonta
pronta para a festa, para a orgia principesca
que queremos exuberante, olímpica e extravagante
em que Prometeu roubará, então, o fogo a Zeus
para o entregar a nós dois, seres mortais e imorais
sendo tu Apolo e eu Vénus, com a mais estrondosa certeza.

Faz de mim gato sapato com tirania e espantosa soberania
engole-me o fôlego todo, todo, de um trago só e largo
lambe-me os mamilos assomados, desmiolados e eriçados
provoca-me arrepios, gemidos, ais e gritos incontidos
que eu prometo, e juro-te a pés juntos, ser só tua
nem que seja por uma noite, momento de todos os tempos.

Rasga, estraçalha, despedaça o lençol de cetim branco, doce
onde há tanto te espero, guardada, intocável, embrulhada
e logo que obtida a ação, percorre-me todinha com as mãos
consola e rola pelo meu corpo nu, como se fosses água
tateia e saboreia tudo aquilo que encontrares e desejares
desce ao meu recetáculo floral, faminto e transcendental
onde as sépalas e as pétalas se agitam, contorcem e gritam
pelo teu estame rijo, fértil, providencial e descomunal
e aí, nesse lugarzinho, estaciona para mais me humedeceres
usando a língua, todos os teus dedos, sei lá, tudo o que quiseres.

O ideal será que abras todos os lábios da minha corola vistosa
até encontrares o botão das sensações, algo fundamental
onde imploro que te demores, por favor, agradecida
até que ele trema, se agite, vibre, se excite e suplique
o teu manto branco, tão espesso e abundante, um encanto
que se entrelaçará, pegará e misturará com a seiva dele
em batimentos e vaivéns ao natural, como é humano e soberano.

Continua, que já percebi que sabes mexer com os meus sentidos
bastando um toque teu para que fique molhada e inundada
com a mente confusa, perdida, obtusa, desmemoriada
obcecada por tudo o que tu tenhas e que de ti venha
sob as mais diversas formas, sobretudo as menos próprias
que me extasiam, acalmam, roubam-me até a alma e viciam-me.

Como és homem a valer, aproveitas esta minha irrelevante loucura
passeando, deslizando, treinando o teu falo pela minha boca
que fica desvairada, de todo destrambelhada, a aluada
quando experimenta, prova o sabor e inspira o odor
atividade que jamais pensou pôr em prática, fazer e satisfazer
todavia no amor e na vida, e como bem sabes, tudo pode acontecer.

Enquanto isso, tu ascendes e atinges logo e rapidamente o paraíso
não precisando já de mais nada, pois estás de barriga aviada
ficando eu no aquém, mas tu, eu sei, nem deste por nada
tendo-me visto, só, como uma escrava devotada e sem memória
que nunca fui nem sou, mas antes alguém muito diferente
que deseja que encontres em mim todas as formas de amar
todas as outras mulheres, que um dia fizeram parte da tua história.

Eu sou a adição, subtração, a divisão e multiplicação de todas elas
uma operação totalmente fora do vulgar e difícil de alcançar.
Aceitas ou queres ainda pensar?


CÉU

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

SOU ASSIM

Nunca fui menina, moça, mulher padronizada
segundo moldes, trivial, adaptada
jamais senti atração pelas coisas restritas
pelas vivências fraquinhas e certinhas.
Rendo-me a amores, a orgasmos avassaladores
com cenas resolvidas com prantos e soluços
que me sufoquem e me tirem a voz, visceralmente.

Aceito da vida o que ela tem de belo e de inferno
e não habito nela para que gostem de mim
mas dela faço parte, para tudo aprender
com consciência plena, cada bocadinho meu.
Aproveito, só, aquilo que me acrescenta
e desprezo, o que me empobrecesse e decresce
pois não aceito comportamentos assim, bom de ver.

Adoro escrever poesia, desventra-la e descara-la
para que vocês sintam o paraíso, o delírio
numa mente polifacetada, que não me obedece
espalhando o que quer e sabe que aquece.
Sou sensual, erótica, intensa e imensa
e guardo no coração um amor, que me exausta
restando-me a escrita como libertação e compensação.

Sendo como eu sou, recuso, sempre, meios termos  
como, pode ser, pois, mais ou menos, talvez
preferindo as fraturas e tripas de fora
ficando eu de rastos, mas sem irrealidades.
É aí que invisto, ajudo, socorro, dou e acredito
porque o sofrimento humaniza e suaviza
não interessando as razões dessas atitudes e alterações.

Agradam-me as coisas exageradas, incontroladas
os olhares faiscantes, libertinos, fuzilantes
os gestos impensados, as palavras loucas e soltas
dizendo não a estradas, mas sim a atalhos.
Acredito em Mindanau, em verdades, profundidades
e tenho medo das latitudes, lonjuras, altitudes
mas não fujo dos abismos, dos seus condicionalismos
pois são eles que me revelam a minha autêntica dimensão.

O que me interessa mesmo, especialmente no amor
é o que ele adiciona ou subtrai de mim
quando a carência, a autossuficiência me prende
e me veste de uma solidão dura, para minorar vazios.
O amor rouba-me essa capacidade intrínseca
tirando-me a armadura que cobre esta fragilidade
julgando que faz de mim o que bem quer
mas sei bem onde quero estar e estou, e por aí, não vou.

Então, larga-me, desprende-me, liberta-me, de vez
pois sei viver sem ti, sem as tuas imposições
que só me espartilham, embaçam e embaraçam.
Sai, para sempre, daqui, estouvado, animal quadrado
que supões ter todas nas tuas garras aguçadas
mas comigo estás enganado, pois eu não sou pautada.
Então, vou dançar e soltar-me, sem liberdade condicionada.


CÉU

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