domingo, 6 de outubro de 2019

SABES-ME

Sabes-me sempre a tão pouco, meu amor
quando em mim atracas, com volúpia
de boca esfaimada, explorando a minha.
O teu cabelo cheira-me tanto a luar
que ata com nós firmes a nossa paixão
a que construímos há tanto, tanto tempo!

Deixo que as lágrimas teimosas e mornas

beijem o meu rosto e os cantos da boca
que já só sabe à tua, invariavelmente.
Depois, misturo-a com a saliva, ardente
numa alquimia pagã, nunca permitida
tendo o teu corpo, louco, pressa orgástica.

Abraças-me, então, muito melhor que o ar
e eu enleada em ti, sou, somente, ave
a proteger-se do furor das tuas palavras.
Cantas-me, doce, a vida consagrada
quando me fazes tua, incansavelmente
no delírio e no mutismo, ao mesmo tempo.

Não quero, não quero que me saibas de cor
quero, isso sim, surpreender-te sempre
e que te refaças para me amares de novo.
E de ave mansa, indefesa e à mercê
torno-me leoa, nos buliçosos prados de ti
sendo, simultaneamente, presa e predadora.

No meu corpo deixas muitos sinais urgentes 
que receio não ser capaz de satisfazer
entrando eu logo em pânico, desesperada.
Assim, e mesmo não conseguindo abrandar
este desejo, esta fome, que de ti possuo
sei que o pouco que me dás, é tanto, tanto!


CÉU

sábado, 25 de maio de 2019

DESASSOSSEGO

Quando me dizes que estás para chegar
a inquietação e o desassossego
tornam-se detentores do meu ventre
que sente mariposas incomodando
esperando que o caçador lance a rede
para que, de forma hábil, deixe sair o ar. 

É então que os teus sonhos bons e alvos
ascendem as paredes do quarto
e tudo fica transparente e clarividente
e até a janela lança sons especiais
que somente nós ouvimos e sentimos
enquanto as cortinas sussurram saudade.

Para te receber, decoro o chão com flores
que espalho, de jeito estratégico
para que o odor das pétalas te extasiem
e façam abrir os teus lábios ávidos
ao ambiente por mim pensado e criado
misturando eu jasmins com vontades de ti.

A colcha da cama, já toda desapacientada
abre os braços ao teu corpo todo
para que pegue fogo aos teus sentidos
que fazem com que o meu vestido
vermelho e sofisticado, se solte da pele
como abelha, que procura mel na tua boca.

E, finalmente, quando a porta se escancara
deixas a ausência, de jeito alegre
pendurada no puxador, do lado de fora
nela escrevendo: não incomodar!
Tu entras, de afogueada, na minha fome
como pão, que não trago há séculos
fermentado no tempo e instante certo
num prazer durável, voraz e incontrolável
investindo e reinvestindo, em ereção
pela noite dentro, sem uma palavra alforriar.


CÉU

O MUNDO PASSA POR AQUI