quinta-feira, 31 de outubro de 2024

TENHO SAUDADES

Tenho saudades de ti, tantas, tantas

vontade de te abraçar

beijar-te vezes sem conta

até a minha alma se cansar.

Tenho sede do teu corpo

onde me perdia

em momentos de desmedida loucura. 


E tu que demoras a chegar...


Tenho vontade de correr, correr muito

para que o tempo encurte

esta demora no nosso encontro.

Quando vieres

vencerei corridas de obstáculos

saltarei barreiras de toda a espécie

abrirei o peito de alegria

gritarei amor bem alto

e entoarei o meu riso ao cheiroso vento.


Sim, sim, acontecerá...


Quando te souber por cá, terna alegria 

mergulharei meus olhos nos teus

entrelaçarei frases de saudade

com tímidos sorrisos

e juntos de mãos dadas

absorveremos o mundo

e o tempo tornar-se-á mais fecundo.


CÉU

sábado, 12 de outubro de 2024

SE TU IMAGINASSES

Sabe-me a boca

a ameixas maduras

a bananas doces

a mangas carnudas.

Amadurecem-me

as maçãs do rosto

enquanto os seios

me crescem

como melões ao sol.

Mesclam-se os aromas

extasiam-se os sabores

enlouquecem-me as cores.

Ah! Se tu imaginasses

o sumo que sai do meu corpo

quente, louco e saboroso

enquanto te espero...


CÉU

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

É ASSIM

Por vezes parece que a tua libido está nas palavras. 

Quando te leio sinto que folheias o meu corpo 

em cada página tateio a tua pele   

sempre que o dedo folheia é como dedilhar o teu corpo  

deixando-te adentrar-me um pouco, muito. 

És poesia tórrida do meu desejo

és lábios que me beijam em cada espaço das palavras

falo que me penetra no final de cada estrofe.


É assim, meu amor

quando não estás por perto

e as mãos da noite me embalam e me deliciam

apoderando-se elas, totalmente, de mim.


CÉU                                         

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

CAMA DA ESCRAVIDÃO


Acariciada por belas pétalas amarrotadas

húmidas no néctar do odor do teu corpo

sinto nos ossos famintas gargalhadas

que me falam no silêncio das palavras

dos desejos da tua descarada imaginação.


E ouvindo os cânticos doces e escondidos

que ressaltam da tua mão, na Paixão

agarrando os teus suores esculpidos

por anseios cada vez mais prementes

vou, louca, de encontro ao teu odor vivo.


Mergulhando fundo nos lençóis despidos

só com o físico em tortura e suplício

os lábios gemem pelos teus encarecidos

dos beijos de amor, poucos, ardidos

que choram, soltando por ti um suspiro.


As tuas mãos! Agarrando a cintura nua

balançando-se nela como um gáudio

como se fosses dono, a dança continua

por mais um dia e por mais uma lua

em lascivas oscilações de prazer e dor.


Sentindo o prazer do toque de mil flores

que ardem resplandecentes de emoção

os corpos emitem contínuos odores

implorando por mais tambores

rufando, insanos, na cama da escravidão.


CÉU

quinta-feira, 21 de março de 2024

ESTRELA DA TARDE

Comemora-se hoje, 21 de março, o Dia Mundial da Poesia. Eis a minha participação. 


Era a tarde mais longa de todas as tardes

que me acontecia

eu esperava por ti, tu não vinhas

tardavas e eu entardecia

era tarde, tão tarde, que a boca

tardando-lhe o beijo, mordia

quando à boca da noite surgiste

na tarde, tal rosa tardia.


Quando nós nos olhámos, tardamos no beijo

que a boca pedia

e na tarde ficámos unidos ardendo na luz

que morria

em nós dois nessa tarde, em que tanto tardaste

o sol amanhecia

era tarde demais para haver outra noite

para haver outro dia.


Meu amor, meu amor

minha estrela da tarde

que o luar te amanheça

e o meu corpo te guarde.


Meu amor, meu amor

eu não tenho a certeza

se tu és a alegria, ou se tu és a tristeza

Meu amor, meu amor

eu não tenho a certeza.


Foi a noite mais bela de todas as noites

que me adormeceram

dos noturnos silêncios que à noite

de aromas e beijos se encheram

foi a noite em que os nossos

dois corpos cansados não adormeceram

e da estrada mais linda da noite

uma festa de fogo fizeram.


Foram noites e noites 

que numa só noite nos aconteceram

era o dia da noite de todas as noites

que nos precederam

era a noite mais clara

daqueles que à noite amando se deram

e entre os braços da noite

de tanto se amarem vivendo morreram.


Eu não sei, meu amor, se o que digo 

é ternura, se é riso, ou se é pranto

é por ti que adormeço e acordo

e acordado recordo no canto

essa tarde em que tarde surgiste

dum triste e profundo recanto

essa noite em que cedo nasceste

de mágoa e de espanto.


Meu amor, nunca é tarde nem cedo

para quem se quer tanto.


Compositores: José Carlos Ary dos Santos e Fernando Tordo

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

BRUXINHA

Chamavas-me bruxinha

ainda mal conhecias 

os meus feitiços fulminantes

feitos com flores de laranjeira

pétalas de rosas vermelhas

folhas verdejantes

estrelas cintilantes

bocados de luar

tudo misturado

com salpicos de amor e mar. 


Elixir radical, brutal e fatal

ao qual ainda fui acrescentar

a beleza do meu olhar

a cor da minha pele

pedaços de lábios de mel

um perfume mais que sensual 

do corpo de mulher

que sabe muito bem o que quer.


E com amor, muito amor

te dei tudo isto a beber

para que pudesses perceber

que não te enganavas ao dizer

que no meu feitiço

querias para sempre viver.  


CÉU


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

SEREI O QUE QUISERES

Na subtileza e delicadeza

em que a tarde se despede

o corpo ganha a vontade

de se estender no horizonte.


Fecho os olhos suavemente

e embalo-me no teu sorriso.

Sei que me anseias

nos teus braços

hoje mais do que nunca.


Sei que vais alterar o tempo

antecipando o gesto

dos teus braços nos meus

da tua boca na minha.


Sinto que sou o espaço

que liga o real ao sonho

que sou o corpo

onde te deitas

e descansas a alma.


Serei o que quiseres

enquanto matarmos a sede 

da mesma fonte,

a única que nos conhece.


O sol põe-se.

Nós entrelaçamo-nos

e a noite veste-se de desejo.


CÉU

domingo, 27 de agosto de 2023

INDECISÃO


O leve toque das tuas mãos no meu corpo

causa-me arrepios

percebo que não tem remédio

a minha instabilidade já está por um fio.


É quase inevitável entregar-me

mas se eu for

não sei se saberei voltar.


As tuas pernas entrelaçam-se nas minhas 

as minhas mãos exploram a tua anatomia

sinto o teu cheiro e a textura da tua pele macia.


Tenho receio!

Tenho medo de me entregar

se me deixo levar pelo desejo

não sei se saberei voltar.


O calor do meu corpo aquece o teu

o calor do teu corpo incendeia o meu

é fogo ardente queimando ambos.


Pronto, fui!

Deixei-me levar.

Agora que aqui estou

desejo nunca mais saber voltar.


CÉU

segunda-feira, 10 de julho de 2023

CÂNTICO BRANCO

 "Vem por aqui" - digo-te, terna e mansamente

enquanto abro os braços, num vasto abraço

quase certa de que seria muito bom para ti

se me desses ouvidos, se me escutasses.


Quando te digo, docemente: "vem por aqui"

olhas-me, vaga e desprendidamente

(há, nos teus olhos, um mar de sargaços) 

enrolando os braços, vazios, desencontrados

e nunca vais por ali…


Julgas que a tua vitória, é, convictamente

gerar desentendimento, mágoa, sofrimento

não estender a mão a quem dela precise

porque tu vives nessa angústia, nessa dor

desde que abriste os olhos ao mundo, amor.


Dizes não, não vou por aí!

Só vais por onde te levam os teus pés…

e se quando perguntas, ninguém te responde

escusado será dizer-te, sempre, "vem por aqui"!



Assim, preferes cair nos becos enlameados

rodopiar nos ventos das destemperanças

dilacerares-te nas navalhas da insegurança

como um trapo, como um humano farrapo

a ires por ali…



Pensas que vieste a este mundo padrasto

para que uma mulher fosse desflorada

para espezinhares este árido chão

pois tudo o que fazes, afirmas, não vale nada.



Portanto, como poderão os outros, os tais

aconselharem-te meios, darem-te forças

para que possas derrotar o teu Adamastor?

Circula nas veias desses, sangue sem ideais

e esses gostam de situações fáceis

enquanto tu, adoras o Desconhecido, a Ilusão

a Aventura, a Viagem, que pode não ter volta.



É melhor que partam, que te deixem, pedes-lhes

pois eles têm casa, mesa, país e jardins sem fim

têm vontades, vaidades e alegrias mascaradas

têm leis obsoletas, apropriadas, intelectualizadas
 
enquanto tu possuis e preferes a tua Demência

que te faz sentir diferente, consciente e genuíno

nesta convenção, neste tratado, nesta aparência.



Só Deus e o Seu mas sábio anjo gerem a tua vida

somente a eles e a mais ninguém a entregaste

e só a eles cedes, e tão cegamente, obedeces 

pois todos os outros tiveram mães, tiveram pais

mas tu que acreditas, não ter princípio nem fim

como alguém inadaptado, fora do jogo, alheado

que nasceu do (des)amor entre o Bem e do Mal

suplicas, ciente, que ninguém te dê indicações

que ninguém te questione, te peça explicações

"Que ninguém te diga: "Vem por aqui"

porque a tua vida é um temporal, que se desatou

é uma vaga gigante e dantesca, que te abalroou

é algo muito pequenino, que se alvoroçou

e não sabes, por isso, por onde ir

e não sabes, por isso, para onde ir

mas sabes, por isso, que não irás por ali.

Então, e se assim é, fica comigo, aí ou aqui.



(Versão oposta ao poema "Cântico Negro" de José Régio)


CÉU

sábado, 3 de junho de 2023

TODAS AS NOITES

Beija-me e abraça-me esta noite

todas as noites em que vieres

de mansinho e suavemente

querendo sentir o teu corpo

enlaçado ao meu, loucamente.


Desejo que proves do meu sabor

que me ponhas louca de alegria

aflorando todos os meus sentidos

quando te aliviares na minha boca

não havendo controle, mas euforia.


Quero que me tomes, levianamente

que me sufoques, que me incendeies

que perfumes o meu corpo

com a tua língua nua e desaforada

lambendo-me todinha, desnorteada.


CÉU

sexta-feira, 28 de abril de 2023

DESPUDORADA

Despida de quaisquer pudores

visto-me de utopias

faço do teu corpo o meu abrigo

a minha mais louca alegria.


Necessito de te sentir em mim

dentro, fora, de lado

de qualquer maneira

meu amor, meu doce amado.


Quero escalar os teus píncaros

banhar-me no teu suor

nadar na saliva dos teus beijos

sentir o teu incrível paladar

alimentar os meus ensejos.


Quero-te, meu querido!

Vem e prende-me 

suga-me, delirantemente

lambuza o meu corpo todo

com as nossas seivas

sussurra ao meu ouvido

faz-me arrepiar

faz-me gemer de prazer

faz-me mulher saciada 

completa e despudorada.


CÉU

terça-feira, 21 de março de 2023

PRAZER

COMEMORA-SE HOJE, DIA 21 DE MARÇO, O DIA MUNDIAL DA POESIA. EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO. 


Certas coisas não devem ser reveladas 

mas descobertas, sentidas e saboreadas

pelo olhar, paladar, no toque atrevido

no do aroma do corpo

que se abre no delicioso cio

delirante encantamento da minha vida

alucinação apaixonante dos meus dias

presente exato da criação que se cria

quando submersa puramente

nos meus sonhos e devaneios

realizo nos teus braços ávidos

minha poesia inteira

para sempre em ti ser

molhando os sussurros e gemidos

de inebriante e arrebatado prazer.


CÉU

sábado, 12 de novembro de 2022

REBULIÇO

Mal te pressinto e sinto

à ombreira da porta

entreaberta e leviana

sei do inevitável

rebuliço do meu corpo

do desalinho do chão

sob os nossos passos.

Prontamente, somos

impiedosas bocas

que se mordem no beijo

botões rebentados

os seios soltos, bravos

entre as tuas mãos

língua com língua

nesta ansiedade

pele com pele

a salgar-nos o ventre

de saudade

esfarrapados.

Que importam os outros

cá dentro temos o mundo

repleto de avidez.

Cá dentro

demolimos paredes

que se envergonham

do desnorte

nas nossas coxas

a gemer em chamas

o vermelho louco da paixão.

Quero-te em mim

abre-me toda

volta-me 

arranha-me os poros 

transpira-me

no teu corpo teso

em espasmos de amor.

Não pares

verga-me toda

rasga-me e verte-te

em mim cravada em ti.

E, sem saber sequer

se a porta se fechou ou não.


CÉU

terça-feira, 25 de outubro de 2022

LINK

A pedido do amigo e comentador, Geraldo Ribeiro, agradecia que clicassem no link abaixo e exprimissem a vossa opinião no blog dele. Obrigada!

https://www.umavozdebetim.com.br/

domingo, 11 de setembro de 2022

ASSIM

No calor tórrido do teu abraço

eu queimo a minha angústia.

Na chama ateada do teu corpo

eu arrefeço o meu cansaço.

No brilho fulgente do teu olhar

eu apago o meu passado triste.

No fogo escaldante do teu beijo

eu derrubo o meu sofrimento.

Na centelha viva do teu desejo

eu engravido o meu sentimento.


Quero-te desta forma, assim... 

neste momento e para sempre

perdida em êxtase para te ter.

No labirinto de ti aprisionada

suor a escorrer pelo meu ventre

na entrega de mim desnudada.

A fêmea, dantes adormecida 

surge agora ainda mais mulher

pronta a tudo ofertar e dar

de máscaras, todinha despida. 


Quero-te todo, inteiro em mim 

do que sempre foi ambicionado

na voragem da minha paixão

de me possuíres tão sequioso

alimentado no suco do prazer

que humedece cálido e viscoso

meu sexo que está ao teu unido

afundado num mar de emoção

embriagado no auge de me ter

para todo o sempre te pertencer. 


Quero-te desta maneira, assim

bem fundo dentro de mim.


CÉU

segunda-feira, 21 de março de 2022

O POETA

COMEMORA-SE, HOJE, DIA 21 DE MARÇO, O DIA MUNDIAL DA POESIA.

EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO.


O Poeta é um deus supremo das palavras.

No início a sua imaginação ultrapassa

as imagens que surgem na sua mente

e atravessam o que ele não entende

nos mundos invulgares e transcendentes.


Ele imagina firmamentos em cada poema

conhecendo caminhos em cada visão

e sente sensações em cada exclamação.

Nas trevas, ele revela os abismos

nas águas, ele alivia a sua profunda sede.


A sua poesia une as noites frias e geladas

com o calor dos dias que vão chegando

as tardes chuvosas com as auroras

os passados saudosos com belos futuros

e o agora vivido com preguiçosas manhãs.


O Poeta é um deus criador de tantos versos

se ele finge ou não, só ele o pode afirmar

e os seus livros nascem iguais às estações.

No outono ele une os rascunhos escritos

no inverno, entorpecido e em hibernações.


Na primavera ele lança as sadias sementes 

nos corações recetivos de toda a gente 

e no verão, ele colhe a luz da sua atitude.

A obra do Poeta transcende a sua vivência

transforma-se num legado intemporal

e permanece insigne na lembrança do leitor.


CÉU

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

DELÍRIO

COMEMORA-SE, HOJE, DIA 14 DE FEVEREIRO, O DIA DOS NAMORADOS. EIS A MINHA PARTICIPAÇÃO. 


Sem eu saber lá muito bem de onde vinha

aquele cálido soprar, aquele bafejar

nos meus cabelos, no rosto e no corpo

que o recebia, o aquecia e crescia

ao contacto intenso e galopante do teu

num estado eufórico, louco.


Um encontro doce e de indescritível prazer 

tonificado, já em pedra, solidificado

viril, destemido, de rompante, abusivo

desordeiro, mas afável e seduzido

pela agitação e excitação do meu corpo

contra o teu, já quase fogo.

 
E queres e apoderas-te logo, logo de mim

tomando, perseguindo, conseguindo

o achar, o realizar do ponto de encontro

sonhado, desesperado, prometido

e o beijo com que me enlaças a boca

sabe-me a tão, a tão pouco!


As mãos ávidas, que queimam as roupas

abrem veredas, matagais, estrelas

e os olhos olham-se, falam, chocam-se

e ensinas-me o caminho, guias-me

com força neste impulso forte, convexo

estendendo a passadeira vermelha

escancarando todas as portas ao sexo

já a babar-se de tão frouxo!


Conheço, sei de cor, os teus íntimos sinais

os gemidos, o arfar, os gritos e os ais

a voz, a tua voz, desejando e exigindo

mais, sempre mais e muito mais

e a tua língua dominadora e guiadora

levando-me, pouco a pouco.


Finos e fortes perfumes, odores e sabores

pénis em ereção, ansioso, incontido

meu amor, vem, minha língua dançarina

ao teu render, quase vindo

em avalanches, pérolas e brilhantes

espessos, de muco, de ouro.


Manobras-me, manuseias-me, dobras-me

como flor breve, à mercê, leve

nas tuas mãos, desfalecendo, morrendo

e segues o vento tórrido

num voo despótico, sensual, erótico

e quando paras, és beijo rouco.


E eu em delírio, febre subindo, trepando

e tu em mim, feliz, naufragando

e tu em mim investindo, alagando-me

e eu usufruindo e gostando

até que as palavras, os uivos, os gritos

aconteçam da morte pequena.


E depois e logo de seguida, e sem parar

as coordenadas dos sentidos

contorcem corpo e alma em espasmos

em estrofes brancas e bordadas

que inventei e escrevi com o teu sémen

escorrendo devagar, aliviado

pela vegetação e botão da pradaria

que estremece e se agita e enlouquece

de prazer fundo, extenso, profundo

e somos só dois, nós, tu e eu

jazendo ali, anarquizados e sagrados

fazendo o amor deste e de outros mundos.



CÉU

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

REFLEXÕES

Este meu post foi baseado nas palavras de Baruch Spinoza, Filósofo Holandês que viveu no século XVIII, a propósito de Deus. 


O DEUS DE SPINOZA


Deixem de rezar e de bater com a mão no peito, porque não é isso que vos torna melhores pessoas. O que Deus quer que façamos é que saiamos do nosso lugar de conforto, passeemos, ajudemos os outros e desfrutemos da vida. Devemos divertirmo-nos, cantar, dançar e apreciar tudo aquilo que Deus fez para nós.

Deixem de ir às igrejas, aos templos macabros, sem vida, obscuros e frios, que vocês mesmo construíram e que acreditam ser a minha casa. A minha casa está nos montes, nas montanhas, nas planícies, nos bosques, nas praias, nos rios e em tudo aquilo que vocês veem. Aí é onde eu vivo e passo os meus dias, expressando o grande amor que tenho por todos vocês.

Deixem de me culpar pela vossa vida desgraçada e miserável, pelas doenças e por tudo aquilo que de mal vos aconteça, pois eu nunca vos disse que vocês eram pecadores. Deixem de ler livros a que chamam "sagradas escrituras", que nada têm a ver comigo, nem com as minhas intenções. Se não sabem olhar-me no nascer do sol, numa paisagem, num sorriso franco e vasto de uma criança, não me encontrarão, decerto, em nenhum livro.

Deixem de ter medo de mim, porque eu nunca vos julgo, nem vos critico, não me irrito e nem fico zangado e muito menos vos castigo. Eu sou o mais puro amor. Deixem de pedir perdão, pois não há nada para perdoar. Se eu vos fiz, vos enchi de paixões, de prazeres, de sentimentos, de limitações, de livre arbítrio, como posso eu vos castigar por serem como são, se fui eu que vos fiz? 

Acreditam que eu teria criado um lugar para queimar todos os meus filhos que têm comportamentos maus e incorretos até ao fim dos tempos? Mas que Deus é esse, que pode fazer todas essas coisas terríveis? Esqueçam os mandamentos, pois eles são artimanhas para vos manipularem, para vos controlarem e que só geram em vocês uma culpa constante e eterna. Respeitem o vosso próximo e não façam aos outros o que não gostariam que fizessem a vocês. A única coisa que vos peço é que tenham atenção à vossa vida e que estejam sempre alerta, visto que vocês são totalmente livres para fazerem das vossas vidas um paraíso ou um inferno.

Deixem de acreditar em mim, porque eu não quero que acreditem em mim. Quero sim que me sintam em vocês quando beijam os vossos familiares, os vossos amigos, ou acolhem nos vossos braços uma criança ou um idoso.

Deixem de louvar-me. Que tipo de Deus ególatra (egoísta, egocêntrico) vocês acreditam que eu seja? Sentem-se gratos? Demonstrem-no cuidando de vocês, da vossa saúde, do vosso bem-estar e das vossas relações com o mundo. Expressai a vossa alegria e felicidade. Essa é que é a maneira de me louvarem. Deixem de complicar as coisas e de repetir, como se fossem papagaios, o que vos disseram sobre mim. 

Não andem à minha procura fora! Vocês, dessa forma, nunca me encontrarão. Procurem-me dentro de vós. É aí que eu estou. Verdade. Dentro de vocês.


CÉU  

sábado, 18 de dezembro de 2021

terça-feira, 16 de novembro de 2021

A RESPOSTA

Dei pela tua entrada no espaço onde improvisei a nossa noite, com passos maviosos e respiração prudente. O meu peito batia imenso, mas tentei amenizar a situação com um inevitável engolir em seco, e, inteligentemente, encostei-me à parede fria, no canto mais recôndito que encontrei.

E agora, o que sucederá? Como procederá ele? As minhas mãos, os meus dedos contorciam-se com delírios e sensações indescritíveis.

Apalpaste o escuro, e, facilmente, acabaste por me encontrar e me tomar. Não proferiste um monossílabo sequer, mas eu pressenti o teu bafo a percorrer-me o corpo de alto a baixo. Era tórrido, suave e terno, como o toque das tuas mãos em mim. O teu corpo e as suas convulsões diziam-me que caminhasse, que não tivesse receio, enquanto a tua respiração já bem perto, tentava deixar soltar a minha, para que me fizesse "gente" e me desse.

Dar um pequeno passo em frente, seria fácil, e haveria o encontro de dois corações, de dois corpos em alvoroço. Tive medo e não o fiz, embora o meu desejo me tivesse dado uns tantos safanões. Os meus sentidos pareciam bloqueados e os meus olhos, repletos de cio, sofriam por falta de luz.

Sem palavras, pegaste nas minhas mãos, muito frias e apavoradas, com as tuas, beijando-as e apreciando-as, como se de uma bela pintura se tratasse. Estava ali tudo o que sentias e o que querias de mim. Quando as sentiste menos frias,  guardaste-as numa das tuas, e com a outra tateaste todas as minhas linhas, sinais e veias que levavam o sangue aos sítios certos. Naquele momento, senti-me calma, finalmente, lembrando-me da doçura de todas as tuas carícias, sinceridade e maturidade, que tão bem conhecia.

Não ousei movimentar-me, nem retirar as minhas mãos de dentro das dele, pois também não saberia o que fazer com elas, nem com os pensamentos que se formavam em catadupa. Senti-me noutra esfera e comecei num quadro ansioso, com vertigens e náuseas. Vendo-me neste sofrimento, levou as minhas mãos à boca dele e beijou-as, delicadamente, percorrendo com elas o seu rosto, e eu, instintivamente, dei-lhes carta de alforria, soltei-as como se fossem aves, que tinham aprendido a voar naquele momento, e afaguei os seus lábios, os olhos, não desprezando as pestanas e as sobrancelhas, tal como os cabelos, que ficaram embaraçados nos meus dedos.

Um rosto bonito, maduro, macio, com algumas rugas, talvez de expressão, e no cabelo, embora ligeiramente comprido, fazia-se adivinhar uma agradável textura e volume. Enquanto lhe descobria o rosto, ele avançou um pouco mais até mim, e deslizou, subindo as mãos pelos meus antebraços, depois pelos braços, alcançando-me os ombros, depois o tórax, parando a sua exploração na cintura, cingindo-a.
Pensava eu que o meu coração era cordato, silencioso e bem comportado, mas qual quê? Que ruidoso! E não me obedecia. Cala-te, disse-lhe na minha imaginação, porque precisava de estar compenetrada naquele momento tão importante.

Foi, então, que me puxaste para ti, compulsivamente, abandonando-te ao meu olhar, mantendo-me, no entanto, presa pela cintura. Senti-te o corpo inteiro e comecei o percurso com as minhas ávidas mãos, que souberam, exatamente, o que fazer. Percorri-te o rosto, em seguida o tórax, onde encontrei alguns pelos, claros e poucos, felizmente, que excitavam a tua camisa já quase toda aberta. Fiquei tão envergonhada e tão corada, mas acho que até disso te apercebeste.

Todo o meu corpo estava em alerta, e sentia os estímulos vindos de ambos os lados. Ele tremia, cerrando os olhos, enquanto os arrepios se notavam, perfeitamente. Tive medo do calor do desejo e estremeci, também. O corpo dele era forte e másculo, bem mais alto que eu, possante e possuidor. Pensei que deixaria de pensar naquele momento, tal era o impacto dele junto de mim. Sem querer, deixei escapar um tímido gemido, quando ele desapertou alguns botões do meu vestido vermelho e me acariciou os seios, gesto que me pareceu de seda, todo adoração, todo procura. Com os seus lábios tocou os meus, quentes e desejosos, delineando todos os cantos e recantos deles e num semicerrar involuntário dos olhos, o corpo afogueou-se. Fitou-me e apanhou-me a boca com a sua num beijo, que deixei aprofundar até fundirmos respirações, ímpetos e suores.

Depois, finalmente, falou e perguntou-me se eu o queria reconhecer. A voz inconfundível e meiga dele perturbou e calou na garganta o meu sim. O meu silêncio não fez mal, pois o meu corpo deu-lhe, logo de seguida, a resposta.


CÉU  

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